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Ainda lembro

  Não lembro exatamente da primeira vez que te vi. Mas sei de cada detalhe da primeira vez que te notei de verdade.  Você fazia uma faxina sem camisa lá em casa— palpitações. Seu dorso torneado, seus lábios rosados e seus olhos cheios de brilho. Você estava lindo. Mas sua beleza estava longe de ser só física: vinha daquele seu sorriso largo, escancarado, de quem encara a vida como piada, mesmo quando o mundo desaba. Da maneira como seu corpo se movia, relaxado, como se dissesse ao universo: “estou aqui e nada mais importa.” Havia algo descomplicado em você. E, ao mesmo tempo, cheio de camadas. A forma como você pedia desculpas por coisas bobas — um gesto fora de época, um resquício de delicadeza que já não se vê. A sua necessidade de agradar me acordando com um café da manhã que parecia de um hotel.  Esse hiato entre sua autoconfiança e suas pequenas hesitações criava uma espécie de vertigem — um brilho trêmulo — que tornava você ainda mais bonito. Você usava jeans e...

Enquanto isso me estende a mão

  Enquanto isso — esse tempo em que quase tudo parece em suspenso, entre o que foi e o que nunca chegou a ser — me estende a mão. Não precisa vir com palavras bonitas, nem com explicações organizadas.  Se você se cala, eu entendo. Silêncio, às vezes, é excesso. Não ausência. E tem gente que carrega tanto por dentro, que o corpo inteiro vira uma tentativa de contenção.  Só que, mesmo sem dizer, há coisas que podem ser sentidas.E eu sinto. Sinto que você guarda mais do que mostra.E que talvez não saiba como entregar o que não foi ensinado a compartilhar. Mas ainda assim, eu te peço:  confia um pouquinho de ti a mim.  Não precisa ser inteiro. Não precisa ser coerente. Pode ser desconexo, contraditório, bagunçado desde que seja seu. Chamo de jogo unilateral essa dança em que só um se move. Em que só um escreve, fala, tenta. Mas não é porque eu ando atrás de “belas coisas simples” que continuo aqui. É o contrário. É porque eu acredito na beleza que há no imperfeito, ...

Escavar ao Redor: o Ofício de Criar Vidas de Mentira que Dizem Verdades

Virginia Woolf não escrevia histórias. Ela escavava — ao redor, por dentro, por entre. Não lhe interessavam tramas lineares, mas os interstícios: o que pulsa sob o gesto, o que borbulha por trás de um pensamento comum.   A imagem das cavernas escavadas atrás dos personagens me comove — e me guia. Porque escrever é isso: não empurrar palavras para frente, mas retirar as camadas que encobrem a alma de alguém inventado. É desenterrar as camadas que explicam por que essa mulher tem medo de elevadores, ou por que aquele homem nunca olha ninguém nos olhos.   Nenhum personagem é verdadeiro se o escritor não souber como ele vê o mundo. Um médico não descreve um abraço como um poeta descreveria. Uma estilista não percebe o luto da mesma forma que um engenheiro. Um homem de 50 anos, criado com escassez, não se assenta no mundo com a mesma tranquilidade de um jovem herdeiro.   A profundidade de um personagem está no olhar que o escritor empresta a ele — mas que precisa ser moldado p...

As veias abertas de Galeano

“O  melhor dos meus dias ainda não vivi, a cada perda corresponde a um encontro de alguém que ainda não conheci. A realidade é generosa e não tem falhas. Eu a crio para celebrá-la. E ao celebrar denuncio tudo o que impede que gente reconheça em nós e nos demais o que somos, as múltiplas cores do arco íris terrestre. Somos muito mais do que dizem que somos.” Eduardo Galeano cuja obra transcende gêneros. Ele fala de história e política mas escreve como se fosse poesia, prosa. Ele usa de jornalismo e ao mesmo tempo de ficção para contar histórias e História. Com uma linguagem poética ele conta a história de saqueamento de riquezas e exploração econômica vivida pela América Latina e feita pela Europa e depois dos Estados Unidos. Ele diz não ter se formado historiador mas que celebra a realidade para denunciar tudo aquilo que impede a nós mesmos e aos outros de nos vermos como somos, plurais, um arco-íris de cores. Ele denuncia as tentativas de uma raça construir uma narrativa de ser su...

Viajar é preciso, viver não é preciso ou seguro

Eu tenho grande dificuldade de ficar no momento presente. Eu tenho transtorno de ansiedade que faz com que estar no meu corpo seja desconfortável e não tolero bem o desconforto. Além disso sofri ataques quando jovem que me fizeram querer ser invisível. Uma estratégia que encontrava é tentar me passar despercebido falando baixo, rápido, me encolhendo na minha corcunda e evitando o olhar alheio. Óbvio que isso só chamava mais atenção mas me fez também fugir do estar no presente. Tenho dificuldade de manter a atenção. Me canso fácil do que vejo sempre. Quando viajo tudo é novo e me sinto 100% presente. É como se não carregasse também a letra escarlate no pescoço. E pudesse ser qualquer outra pessoa diferente daquele garoto que sofreu bullying.  

Ainda Alice

  Eu acredito no poder que a arte tem de mudar a vida das pessoas. Ela mudou a minha. A arte pode transformar a dor em imagens fotográficas ou fílmicas, em palavras de livros ou roteiros de filmes, em canções musicais.   Ela serviu como espinha dorsal da minha vida por muito tempo, especialmente até os 35 anos de idade. Através dela eu forjei minha identidade, processo no qual bebi muito do cinema, da literatura e da música. O amor de Goethe foi a primeira representação artística que me impactou sobre o tema e   de certa forma atualizou a minha ideia de amor que mantive por muito tempo. O amor segundo GH. O amor. Foi também através da arte que construi percepções sobre a dor, o medo, sobre tantas coisas muito caras para o meu amadurecimento. Machado me deu uma visão pessimista do teatro social que combinou perfeitamente com a dor da rejeição que senti com o bullying. José de Alencar me ensinou sobre como o ouro tem o poder de atrair pessoas e construir relações. Persona m...

Discutir sobre politica vale a pena?

Jonathan Haidt, um psicólogo social argumenta que a moralidade não é apenas uma questão de razão, mas também é profundamente influenciada pelas emoções e pelas intuições.   Haidt argumenta que a moralidade é, em grande parte, baseada em intuições e emoções, com a razão sendo usada para justificar essas intuições.  As pessoas são guiadas por diferentes intuições e emoções que influenciam as suas crenças morais. Sabendo disso podemos ser mais empáticos e tolerantes com aqueles que têm opiniões diferentes.