Ainda lembro

 

Não lembro exatamente da primeira vez que te vi. Mas sei de cada detalhe da primeira vez que te notei de verdade.  Você fazia uma faxina sem camisa lá em casa— palpitações.

Seu dorso torneado, seus lábios rosados e seus olhos cheios de brilho. Você estava lindo.

Mas sua beleza estava longe de ser só física: vinha daquele seu sorriso largo, escancarado, de quem encara a vida como piada, mesmo quando o mundo desaba.

Da maneira como seu corpo se movia, relaxado, como se dissesse ao universo: “estou aqui e nada mais importa.”

Havia algo descomplicado em você. E, ao mesmo tempo, cheio de camadas.

A forma como você pedia desculpas por coisas bobas — um gesto fora de época, um resquício de delicadeza que já não se vê. A sua necessidade de agradar me acordando com um café da manhã que parecia de um hotel. 

Esse hiato entre sua autoconfiança e suas pequenas hesitações criava uma espécie de vertigem — um brilho trêmulo — que tornava você ainda mais bonito.

Você usava jeans e estava sem camisa, como quem não se esforçou, mas já chegou pronto.

A gente não se aproximou logo de cara. Eu te achava meio bobo. 

Mas em uma arquitetura improvável de coincidências — que eu não acredito que sejam apenas acaso —, nos aproximamos.

Não sei em que momento me apaixonei por você. Só sei que, quando percebi, já era inevitável.

As memórias dos dias que se seguiram ainda impregnam meus sonhos.

Quando ele te deixou, pela primeira vez, você não teve medo de se entregar para mim.

E quando você foi meu foi como se uma força mágica desacelerasse o mundo para que a alma percebesse o instante.

E por alguns meses, você me deu tudo.

E eu amei até a sua dor escondida — aquela que desaparecia quando eu estava comigo. Eu sei que talvez esse momento não tenha significado para você o que significou para mim.Mas nesses meses, meu coração foi embora com você. Pulou nas suas mãos. Você sente ele bater? Desde então, me casei com a esperança do seu retorno. Esperança: essa filha da puta que destrói o pouco que nos resta.

Eu devia saber. Você não voltaria para mim. Esse homem difícil, ansioso, às vezes brilhante por escrito, mas tropeçado ao vivo — não era o que você queria. Você queria paz.E eu era um vendaval.

 

Eu chorei. Duas vezes naquele fim de semana. A primeira, quando você partiu. A segunda, na janela, vendo seu carro se perder na rua. Chorei por todos os planos que escorreram pelo ralo. Chorei por perder você — esse cara tão foda que preferiu castelos de areia à intensidade de um amor em carne viva.

E eu te entendo. Você criou uma couraça. Virou um personagem defensivo, autoritário, para ninguém te magoar de novo. Eu tentei penetrar. Bati na sua fortaleza durante dias. Você não abriu.

E não, você não tem culpa. Talvez sua lucidez te salvou. Você percebeu: eu ainda não estou pronto. E você não tinha tempo para esperar.

Eu sou como um retrato envelhecido, num porta-retrato empoeirado. Bonito de longe. Mas danificado nos detalhes. E você viu de perto.

A semana seguinte foi uma sequência de recusas. Seus “nãos” batiam em mim como sacos de cimento caindo no concreto. O som era seco. Definitivo.E tudo em mim começou a duvidar de si.

Você me deixou porque não me queria. E isso… está além do meu controle.

A única coisa que me restou foi desistir. Mas doeu. Doeu como nunca.

Eu quis te substituir, mas aprendi: no amor, não existem substitutos. Não se troca o que é real por distração. Eu me contive. Controlei a fome de novidade, o monstro da carência. E o que sobrou? Você. Você me desarma. Você me inquieta. E mesmo assim — você faz com que eu queira ser alguém melhor.

Mas você voltou. E partiu de novo. Mais de uma vez. Mas agora você foi embora de vez. E eu fico aqui, sozinho, nesta cama do tamanho exato do meu desamparo.

Gostaria de pedir: me leva contigo. Mas sei que não posso. Nosso amor não pode ser estetizado. Não cabe em moldura. É memória crua. É lágrima na chuva.

Ainda te guardo nos detalhes: no dia em que nossos lábios se tocaram pela primeira vez, na dança de línguas, no rastro do seu perfume, no silêncio em que você me deu tudo — e eu recebi como quem recebe o último raio de sol.

Você se foi. E eu fico com a lembrança do que não fomos. Mas que, ainda assim, me mudou por dentro como se tivéssemos sido tudo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Netanyahu, a guerra e o colapso da verdade

Doces surpresas

As horas. A dor e o tempo