Ainda Alice

 Eu acredito no poder que a arte tem de mudar a vida das pessoas. Ela mudou a minha. A arte pode transformar a dor em imagens fotográficas ou fílmicas, em palavras de livros ou roteiros de filmes, em canções musicais. 

Ela serviu como espinha dorsal da minha vida por muito tempo, especialmente até os 35 anos de idade. Através dela eu forjei minha identidade, processo no qual bebi muito do cinema, da literatura e da música. O amor de Goethe foi a primeira representação artística que me impactou sobre o tema e de certa forma atualizou a minha ideia de amor que mantive por muito tempo. O amor segundo GH. O amor. Foi também através da arte que construi percepções sobre a dor, o medo, sobre tantas coisas muito caras para o meu amadurecimento. Machado me deu uma visão pessimista do teatro social que combinou perfeitamente com a dor da rejeição que senti com o bullying. José de Alencar me ensinou sobre como o ouro tem o poder de atrair pessoas e construir relações. Persona me falou sobre as máscaras que usamos na vida até quando nos achamos despidos delas. Closer me relembrou de como as vezes nos humilhamos por migalhas de amor. Doistoievisk me ensinou sobre a culpa. No processo de formação da minha identidade seriam incontáveis as referências que poderia trazer. A arte fez com que me conectasse com outras pessoas, me deu autoestima. Mas em algum momento eu me divorciei dela. Esse trecho do discurso de Alice do filme Still Alice me tocou em um lugar muito profundo, e fez pensar no que perdi quando abandonei a arte. 


Quem nos leva a sério quando estamos tão diferentes do que éramos? Nosso comportamento estranho e fala confusa mudam a percepção que os outros têm de nós e a nossa percepção de nós mesmos. Tornamo-nos ridículos. Incapazes. Cômicos. Mas isso não é quem nós somos. Isso é a nossa doença. E como qualquer doença, tem uma causa, uma progressão, e pode ter uma cura. E, por favor, não pensem que estou sofrendo. Não estou sofrendo. Estou lutando. Lutando para fazer parte das coisas, para continuar conectada com quem eu fui um dia. 

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