Escavar ao Redor: o Ofício de Criar Vidas de Mentira que Dizem Verdades
Virginia Woolf não escrevia histórias.
Ela escavava — ao redor, por dentro, por entre.
Não lhe interessavam tramas lineares, mas os interstícios: o que pulsa sob o gesto, o que borbulha por trás de um pensamento comum.
A imagem das cavernas escavadas atrás dos personagens me comove — e me guia.
Porque escrever é isso: não empurrar palavras para frente, mas retirar as camadas que encobrem a alma de alguém inventado.
É desenterrar as camadas que explicam por que essa mulher tem medo de elevadores, ou por que aquele homem nunca olha ninguém nos olhos.
Nenhum personagem é verdadeiro se o escritor não souber como ele vê o mundo.
Um médico não descreve um abraço como um poeta descreveria.
Uma estilista não percebe o luto da mesma forma que um engenheiro.
Um homem de 50 anos, criado com escassez, não se assenta no mundo com a mesma tranquilidade de um jovem herdeiro.
A profundidade de um personagem está no olhar que o escritor empresta a ele — mas que precisa ser moldado pela história, pela vivência, pela carne e pelo tempo que esse personagem carrega. Sem isso, escrevemos bonecos. Silhuetas com falas elaboradas, mas sem sangue. Frases belas, porém ocas.
Uma mulher negra, nordestina, de 70 anos, que passou a vida cuidando de netos e vendo novela, vê o mundo com uma sensibilidade que não se aprende na academia.
Um arquiteto criado em Lisboa, leitor de Clarice Lispector, nota a luz de uma manhã de forma radicalmente diferente.
E é esse olhar que torna o personagem real — ainda que ele seja fictício.
Virginia Woolf dizia que essas cavernas escavadas se ligavam entre si, e cada uma vinha à luz no momento presente.
Talvez seja isso que a literatura mais profundamente deseja:fazer com que o invisível emerja. Dar voz àquilo que em nós ainda não sabíamos nomear.
Quando escrevemos com pressa, criamos caricaturas.
Mas quando escavamos, com tempo e humildade, criamos pessoas. E pessoas, mesmo que inventadas, têm o poder de nos curar.
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