Enquanto isso me estende a mão

 Enquanto isso — esse tempo em que quase tudo parece em suspenso, entre o que foi e o que nunca chegou a ser — me estende a mão.

Não precisa vir com palavras bonitas, nem com explicações organizadas. Se você se cala, eu entendo. Silêncio, às vezes, é excesso. Não ausência.

E tem gente que carrega tanto por dentro, que o corpo inteiro vira uma tentativa de contenção. Só que, mesmo sem dizer, há coisas que podem ser sentidas.E eu sinto. Sinto que você guarda mais do que mostra.E que talvez não saiba como entregar o que não foi ensinado a compartilhar.

Mas ainda assim, eu te peço: confia um pouquinho de ti a mim. Não precisa ser inteiro. Não precisa ser coerente. Pode ser desconexo, contraditório, bagunçado desde que seja seu.

Chamo de jogo unilateral essa dança em que só um se move. Em que só um escreve, fala, tenta. Mas não é porque eu ando atrás de “belas coisas simples” que continuo aqui. É o contrário. É porque eu acredito na beleza que há no imperfeito, no hesitante, no que ainda não sabe o que é.

 Não me comovem as frases redondas, as definições definitivas, os amores impecáveis. Eu não sou assim. Sou feito de dúvida, de vírgula no lugar do ponto, de sentimento que muda de forma quando visto de outro ângulo. Como escreveu Virginia Woolf, “é preciso coragem para olhar para dentro”E talvez eu só esteja te pedindo isso: que você se olhe. E me deixe ver um pouco também. Mesmo que doa. Mesmo que não saiba nomear. Você faz com que eu queira ser alguém melhor. Não por obrigação, nem por medo de te perder —mas porque tua presença, mesmo no desencontro, me convoca à verdade. Me desperta da dormência, me coloca de volta na minha pele. E se hoje não quiser dizer nada, tudo bem. Mas se puder — me estende a mão. Porque às vezes é num gesto simples que mora tudo aquilo que a palavra ainda não consegue dizer.

 

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