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Dias Perfeitos: o extraordinário no ordinário

Dias Perfeitos: o extraordinário no ordinário Estoicismo, budismo e a estética da presença em Wim Wenders ⸻ O cotidiano como palco Em  Dias Perfeitos  (Wim Wenders, 2023), acompanhamos Hirayama, um homem que limpa banheiros públicos em Tóquio. À primeira vista, a tarefa parece menor, invisível. Mas Wenders mostra que mesmo o gesto mais humilde pode carregar sentido. O pano que desliza, a água que escorre, o reflexo nos azulejos: tudo se torna ritual. ⸻ Estoicismo: aceitar o que se apresenta Para os estóicos, não podemos controlar o mundo, apenas nossa resposta a ele. Hirayama encarna essa filosofia silenciosa: limpa uma latrina com a mesma atenção que outros dedicariam a uma obra de arte. Não há pressa, não há ressentimento. Há aceitação — e, na aceitação, dignidade. ⸻ Budismo: presença e impermanência No zen-budismo, até o ato mais trivial pode ser um caminho espiritual. Hirayama fotografa árvores repetidas vezes, como quem reverencia a impermanência. Cada foto é um testemunh...

Adultização de crianças e adultos infantilizados

Adultização de crianças e adultos infantilizados Ensaio sobre uma fronteira borrada 1. A invenção da infância A ideia de infância, tal como a concebemos hoje, não existiu sempre. Como mostrou Philippe Ariès em  História Social da Criança e da Família , até a Idade Média não havia distinção clara entre criança e adulto: meninos e meninas eram rapidamente inseridos no mundo do trabalho e da vida pública. A infância como um espaço de preparação para a vida adulta, de cuidados e proteção, é uma construção histórica relativamente recente, consolidada sobretudo a partir da modernidade. 2. Por que proteger a infância importa Ter um período reservado ao crescimento é fundamental porque a mente humana se organiza como se fosse composta por caminhos de areia e estradas. As estradas são os trajetos mais antigos e repetidos, difíceis de apagar; já os de areia podem ser refeitos e reconstruídos. Isso significa que traumas na infância — quando ainda não há linguagem consolidada para simbolizar a...

O Mito do Amor Romântico: entre prisão e reinvenção

  O Mito do Amor Romântico: entre prisão e reinvenção 1. Amor romântico não é essência — é invenção Costuma-se falar do amor romântico como se fosse universal, eterno, parte da “natureza humana”. Mas esse ideal é recente: uma invenção cultural, moldada por religião, economia e política. Ele não nasceu para libertar, mas para organizar corpos, regular heranças e domesticar desejos. ⸻ 2. Das fantasias trovadorescas ao casamento por amor Na Idade Média, o chamado amor cortês era cantado pelos trovadores em poemas e canções. Mas era, na prática, uma fantasia. Em muitas regiões da Europa, apenas o filho mais velho podia se casar, para preservar intacta a herança. Os demais eram destinados ao clero ou à guerra. O casamento, portanto, não era escolha afetiva, mas contrato social e econômico. Nesse vácuo, floresceu o amor cortês: paixões platônicas, proibidas, muitas vezes adultério disfarçado de lirismo. O amor romântico, nesse estágio, era mais imaginação do que prática. O cristianismo r...

Ciência, limites e negação

Ciência, limites e negação O microscópio não vê a alma ⸻ 1. A ciência como espelho histórico A ciência nunca foi neutra. Ela nasce de um tempo, se molda em suas linguagens e carrega os dilemas de cada época. O que hoje parece verdade absoluta, amanhã pode ser revisto. Paradigmas caem, teorias se corrigem, hipóteses se reformulam. A própria história da ciência é feita de rupturas. Reconhecer essa condição não é relativismo. Ao contrário: é a consciência de seus limites que impede a ciência de se transformar em dogma, numa religião secular que promete respostas definitivas para tudo. 2. Galileu contra a ordem do mundo Em  Galileu e os Negadores da Ciência , Mario Livio reconstrói a trajetória do astrônomo florentino que ousou dizer que a Terra não era o centro do universo. Galileu não desafiou apenas cálculos matemáticos — ele abalou o edifício simbólico que sustentava o poder da Igreja. A reação foi violenta: condenado, silenciado, obrigado a renegar parte de suas conclusões, tornou...