Somos bons ou maus por natureza?

Somos bons ou maus por natureza? 

Humanidade, de Rutger Bregman, desafia séculos de pessimismo

1. A visão tradicional


Desde os gregos antigos até a filosofia iluminista e a Igreja Católica, a ideia dominante foi a mesma: no estado natural, viveríamos em guerra constante. Thomas Hobbes via a vida humana como “solitária, pobre, desagradável, brutal e curta”, controlada apenas pela civilização, leis e hierarquias.


2. O mito do “efeito do espectador”


Essa visão pessimista foi difundida pela mídia e psicologia recentes. Em 1964, o assassinato de Kitty Genovese em Nova York ficou famoso por supostamente mostrar que ninguém ajudou. Pesquisas posteriores revelaram que essa narrativa era falsa: vários vizinhos tentaram intervir ou chamaram a polícia. Estudos contemporâneos com vídeos reais mostram que, em 90% dos casos, quanto mais pessoas presentes, maior a probabilidade de ajuda. Em um exemplo marcante, várias pessoas se jogaram na água para salvar uma mulher e uma criança que caíram com o carro.


3. Narrativas pessimistas x evidências otimistas


Em 1976, Richard Dawkins publicou O Gene Egoísta, reforçando a ideia de que somos essencialmente competitivos — visão alinhada ao espírito neoliberal da época. Novas pesquisas, porém, sugerem que nossa espécie sobreviveu e prosperou graças à cooperação.


4. Traços que favorecem a cooperação


Corar de vergonha é uma reação involuntária que revela vulnerabilidade e ajuda a construir confiança. Diferentemente dos chimpanzés, nossos olhos mostram claramente para onde olhamos, facilitando a comunicação e a coordenação. Ao longo do tempo, indivíduos mais cooperativos foram favorecidos pela seleção natural. Evidências mostram que houve uma domesticação dos seres humanos com crânios e cérebros menores, como ocorre em animais domesticados. Da mesma forma os homens se tornaram mais dóceis.  


5. Duas formas de olhar para a natureza humana


Uma corrente sustenta que a civilização é apenas uma camada fina que encobre nossa natureza egoísta e violenta. Nessa visão, sem líderes fortes e regras rígidas, mergulharíamos no caos. Outra corrente defende que, ao longo da história, os mais propensos à empatia, colaboração e cuidado mútuo foram justamente os que sobreviveram, formando comunidades mais igualitárias, até entre homens e mulheres.


6. Exemplos de que a cooperação funciona


O romance O Senhor das Moscas mostra crianças isoladas se tornando bárbaras, mas o caso real de Tonga, em 1965, revela o oposto: seis adolescentes sobreviveram mais de um ano sozinhos numa ilha, dividindo tarefas, cuidando uns dos outros e mantendo a harmonia. Evidências antropológicas indicam que grupos que cultivavam confiança tinham mais chances de sobreviver. Estudos de psicologia mostram que, mesmo em crises, a reação mais comum é ajudar, não explorar. Experimentos sociais revelam que escolas e sistemas de justiça baseados na confiança e no diálogo produzem melhores resultados do que modelos punitivos. Na Holanda, a empresa de saúde Buurtzorg mantém alta eficiência com equipes autogeridas. A prisão de Halden, na Noruega, trata detentos com dignidade, oferecendo estudo, arte e convivência — e tem o menor índice de reincidência do mundo.


7. Confiar como ato político


Empresas horizontais e políticas públicas participativas geram mais inovação e engajamento. Escolas livres e métodos restaurativos reduzem conflitos e fortalecem comunidades. Mudar a visão sobre a natureza humana significa redesenhar nossas instituições para potencializar a confiança, e não o medo.

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