O Fim do Cinema como Acontecimento Ou como deixamos de sonhar juntos e passamos a maratonar sozinhos

O Fim do Cinema como Acontecimento


Ou como deixamos de sonhar juntos e passamos a maratonar sozinhos


1. Era uma vez o cinema — e todo mundo viu


Houve um tempo em que os filmes organizavam a realidade. Quando alguém dizia “você já viu?”, a pergunta era quase retórica. É claro que você tinha visto. Era Titanic, era Matrix, era Cidade de Deus. O cinema era um acontecimento coletivo: estreava sexta, esgotava sábado, virava conversa de domingo.


Hoje, os filmes se dissolvem em catálogos infindáveis. O que você viu ninguém viu. O que te tocou, o algoritmo não recomendou pra ninguém. O cinema virou monólogo. E, sejamos francos: monólogo cansa.


2. Streaming: liberdade ou cárcere invisível?


A promessa era linda. Liberdade total. Veja quando quiser, onde quiser, como quiser. O problema é que ver qualquer coisa virou não ver nada direito. A gente pula abertura, acelera cena, confere o WhatsApp no clímax. Não há mais silêncio, não há mais pausa. E como lembra o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, o que não tem intervalo, não tem alma.


O cinema, esse bicho de sombra e tempo, virou fast-food. E nosso cérebro? Viciado em dopamina, incapaz de esperar os créditos.


3. A morte do diretor e o reinado do marketing


Se antes um filme era assinado por alguém — “o novo Almodóvar”, “o último Coppola” — agora é o que está bombando na Netflix. O streaming inverteu as hierarquias: o produtor é rei, o diretor é detalhe, o storytelling é fórmula.


A série The Studio escancara isso com ironia: o roteiro se molda ao que o marketing acha que vai viralizar. O roteiro? Um roteiro? Isso é coisa de gente do século passado. Agora é pitch, thumbnail, clipe no TikTok.


4. Ver filme com tempo é privilégio vintage


Isabela Boscov, essa deusa que resenha como quem te salva de uma cilada amorosa, já disse: há séries com qualidade cinematográfica superior ao próprio cinema. E é verdade. Mas ao mesmo tempo, ela lamenta — como lamentamos os amores antigos — a perda da experiência compartilhada, o filme que era marco, o “você PRECISA ver isso” que valia para o grupo inteiro.


Hoje, o que emociona você é só seu. E às vezes parece que nem foi tão emocionante assim. Porque não teve eco.


5. O que resiste: silêncio, sala escura, olhos úmidos


Ainda há filmes que escapam do algoritmo. Ainda Estou Aqui, por exemplo — esse respiro delicado no meio do ruído. Ainda há diretores que bancam sua visão com a teimosia dos que sabem que arte não nasce de consenso. Ainda há plateias que se calam, de olhos úmidos, diante de uma história bem contada.


Mas é raro. Exige esforço. E, vamos admitir, exige uma certa fé.


Porque o cinema não morreu. Mas anda respirando com dificuldade.

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