Nietzsche x Positividade Tóxica

 Nietzsche x Positividade Tóxica


O que a filosofia e Byung-Chul Han têm a dizer sobre a recusa da dor


1. A era da positividade tóxica


Vivemos em um tempo onde a palavra de ordem é “pensar positivo”. A indústria da autoajuda, as redes sociais e os discursos motivacionais insistem: sorria, seja grato, afaste pensamentos negativos. Essa tendência — conhecida como positividade tóxica — transforma o sofrimento em sinal de fracasso pessoal, como se fosse possível viver numa bolha emocionalmente asséptica.


2. Nietzsche e o amor fati


Friedrich Nietzsche caminhou na direção oposta. Para ele, viver de forma plena é afirmar a vida em toda a sua complexidade, não apenas nas partes que confortam. Sua proposta do amor fati — amar o destino — inclui a aceitação do sofrimento como parte inevitável da existência. Felicidade não é ausência de dor, mas a capacidade de dizer “sim” à vida com a dor.


3. Byung-Chul Han e a sociedade do desempenho


No livro A Sociedade do Cansaço, Byung-Chul Han explica como a positividade tóxica se enraizou. Saímos de uma “sociedade disciplinar” (marcada por proibições e limites externos) para uma “sociedade do desempenho”, onde cada indivíduo é seu próprio vigilante.

Agora, não somos coagidos por um “você deve”, mas seduzidos por um “você pode” — ser mais produtivo, mais feliz, mais saudável. Isso parece libertador, mas gera opressão: se você pode tudo, qualquer tristeza ou esgotamento passa a ser culpa sua.


4. A negação da dor como fragilidade


Na lógica da positividade tóxica, sofrer vira sinal de fraqueza. Mas tanto Nietzsche quanto Han mostram que negar o trágico empobrece a vida. Para Nietzsche, é no confronto com a dor que revelamos forças. Para Han, ignorar limites e fragilidades leva a colapsos silenciosos — como a depressão, que é também resistência ao imperativo de desempenho.


5. Aceitar para se libertar


Negar a dor não nos protege — nos fragiliza. Quando não nos permitimos sofrer, passamos a sofrer também por estarmos sofrendo. O peso se duplica. Aceitar a dor, como propõem Nietzsche e Han, não é desistir: é recuperar a inteireza e a liberdade diante da vida.


6. Um convite à coragem


Felicidade real não é euforia constante, mas a capacidade de sustentar o olhar sobre a vida inteira — o belo e o terrível, a alegria e a perda — sem precisar amputar nenhuma parte da experiência.

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