Liberdade de expressão pra quem?

 


Liberdade de expressão pra quem?


Quando o direito de dizer vira licença para oprimir — e o silêncio é imposto aos que sempre foram calados.



1. Liberdade de expressão não é um valor absoluto — e nem deveria ser


Nos Estados Unidos, a liberdade de expressão é tratada como um direito quase sagrado, previsto na Primeira Emenda. Isso significa que, na prática, até discursos de ódio, supremacistas ou conspiratórios costumam ser tolerados como “opinião”. Já no Brasil, o direito à liberdade de expressão existe, sim — mas é relativo e precisa ser ponderado com outros direitos fundamentais, como a dignidade humana, a honra, a igualdade. Isso significa que há limites. E eles são necessários.


Porque o discurso que promove violência não é só “palavra” — é arma.

E a história já nos mostrou, muitas vezes, que palavras matam.



2. O discurso de ódio divide — e governos autoritários agradecem


A disseminação de fake news, discursos inflamados e moralismos raivosos não é apenas um subproduto das redes. É estratégia. Como escreveu Maquiavel: “dividir para conquistar”. Polarizar a população é uma forma eficaz de impedir o diálogo, de enfraquecer movimentos coletivos, de criar inimigos internos.


Quando um país se transforma em trincheira, o tirano aparece como salvador.

É assim que se criam mitos. É assim que se elegem monstros.



3. O ódio viral não fica só na tela — ele mata


O exemplo de Mianmar deveria bastar. Em 2017, o Facebook foi usado como plataforma de propagação de ódio contra a minoria muçulmana rohingya. Grupos extremistas disseminaram fake news que inflamaram a população — e o resultado foi um genocídio.


Mais de 700 mil pessoas foram forçadas a fugir.

E o Facebook admitiu que “não fez o suficiente”.

Essa omissão, hoje, tem nome: cumplicidade.


No Brasil, a radicalização digital tem levado a ataques em escolas, invasões de espaços sagrados, assassinatos políticos. A mentira, quando viralizada, vira combustível para tragédias reais.



4. Eles não querem pluralidade — querem monopólio da palavra


As mesmas pessoas que defendem o discurso de ódio de Trump ou Bolsonaro contra minorias como se fosse liberdade de expressão são, curiosamente, as primeiras a censurar qualquer manifestação artística, educativa ou cultural que desafie seus dogmas.


Madonna, por exemplo, foi alvo de uma avalanche de críticas por seu show em Copacabana — acusada de “blasfêmia” e “ofensa aos valores cristãos”. Valores esses que, aliás, não são nem nunca foram universais, por mais que os repitam como um dogma colonizador.


Mas um presidente pode dizer que “preferia um filho morto a um filho gay”. Pode dizer que vai “bater em casal gay que se beija na rua”. Pode associar imigrantes a criminosos. Pode normalizar o ódio — e ainda ser ovacionado em nome da tal “liberdade”.


Enquanto isso, professores são perseguidos por ensinar educação sexual. Artistas são calados por tratarem de questões de gênero. Projetos pedagógicos são desmontados com base em delírios como o “kit gay”. A liberdade, nesse jogo, só serve quando protege o pensamento da extrema-direita. O resto é chamado de doutrinação.



5. Onde está a censura?


Há ainda a hipocrisia gritante da direita brasileira: dizemos viver em uma ditadura onde “não se pode criticar o STF”, mas fazemos exatamente isso em vídeos virais, tweets inflamados, stories raivosos. Não há censura real — há impunidade para quem alega censura.


A liberdade de expressão virou carta branca para o discurso de ódio — enquanto quem defende o direito à existência digna é acusado de “lacração”.



6. Quando o ódio vem de cima, ele se legitima embaixo


Em seu discurso no Globo de Ouro, Meryl Streep disse algo crucial: quando alguém em posição de poder ridiculariza um jornalista com deficiência em rede nacional, isso dá permissão para que outros façam o mesmo. Não é só sobre o que se diz — é sobre quem diz.


O exemplo de Trump zombando de um repórter com deficiência mostrou que o problema não é a liberdade de expressão — é o uso dela para desumanizar o outro. E quando essa desumanização vem do topo, ela se espalha como veneno autorizado.



Conclusão: o silêncio não é mais uma opção


Há uma dissonância ensurdecedora no uso seletivo dessa tal liberdade de expressão.

Ela é usada como escudo por quem, na verdade, não quer liberdade — quer domínio.

Quer que a única voz legítima seja a sua. Quer que o outro se cale para que sua moral ecoe sozinha.


Mas nós, os corpos dissidentes, os artistas hereges, os amantes fora da norma, os filhos que sobreviveram ao desprezo,

nós vamos seguir falando.

Escrevendo.

Cantando.


Vamos existir em voz alta — porque não nos resta alternativa.

E a nossa liberdade nunca foi concedida: foi arrancada à força do silêncio.

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