“Estude enquanto eles dormem”

 



“Estude enquanto eles dormem”


7 mitos de autoajuda que não se sustentam


Vivemos em uma época em que frases de efeito ganharam estatuto de verdade. Circulam em palestras, manuais de autoajuda e nas redes sociais como pequenas doses de sabedoria instantânea. Soam fáceis, soam bonitas, mas escondem armadilhas.


Por trás de cada slogan existe um mundo de simplificações: realidades complexas transformadas em fórmulas individuais. O esforço vira solução para tudo; a vontade, remédio universal; a resiliência, virtude suprema. Só que a vida não cabe em frases prontas. Ela é feita de contextos, estruturas, acidentes e, sobretudo, daquilo que escapa ao nosso controle.


Vejamos, então, sete mitos que dizem muito sobre a cultura contemporânea e seus equívocos.



1. “Nunca foi sorte”


É verdade que o esforço conta. Mas negar a sorte é ignorar os acasos da vida. Ninguém escolhe nascer em determinada família, país ou época. Alguns encontram terreno fértil para seus talentos; outros, apesar do empenho, esbarram em barreiras sociais quase intransponíveis.

A frase, que parece motivacional, muitas vezes transforma privilégio em mérito e, de forma cruel, faz do fracasso uma culpa pessoal.


2. “Não se importe com a opinião dos outros”


Ignorar o olhar alheio pode soar libertador. Mas a rejeição dói — e com razão. Durante milhares de anos, ser excluído do grupo significava risco de morte: sem bando não havia alimento, nem proteção. É por isso que ainda hoje a exclusão fere tanto.

A maturidade, porém, nos dá ferramentas. Não se trata de calar as vozes externas, mas de filtrar: distinguir o que é crítica construtiva do que é apenas ruído. A vida em sociedade é feita desse equilíbrio entre a escuta e a autonomia.


3. “Estude enquanto eles dormem”


A disciplina pode inspirar, e sacrificar horas de sono pode até render algum resultado imediato. Mas transformar a privação em virtude é desconhecer a própria biologia. Dormir não é preguiça: é consolidar memórias, regular hormônios, fortalecer a atenção.


A ciência é clara: a falta de sono prejudica a memória, diminui a concentração e compromete a performance cognitiva. Em outras palavras, a frase é absurda — porque justamente quem não dorme aprende menos e erra mais.

O verdadeiro aprendizado não está em competir contra o descanso, mas em respeitá-lo. O sono não é obstáculo ao estudo; é sua condição essencial.


4. “Basta querer para conseguir”


O querer é motor humano. Para alguns, com talentos excepcionais ou redes sólidas de apoio, o desejo pode se converter em conquista. Mas para a maioria, querer não basta. Estruturas de desigualdade, acidentes de percurso e circunstâncias históricas moldam destinos tanto quanto a vontade.

Esse mito, tão repetido, desloca o problema: transforma pessoas em circunstâncias adversas em culpados, como se fracasso fosse apenas falta de empenho. O que está em jogo, muitas vezes, é o mundo, não o indivíduo.


5. “Seja a sua melhor versão todos os dias”


Buscar o melhor de si pode ser inspirador. Mas transformar esse ideal em obrigação é tirania. O corpo humano foi moldado em ciclos, não em picos constantes de energia. Há dias de criatividade, outros de recolhimento.

Aceitar essa alternância não é fraqueza, é maturidade. Afinal, somos feitos tanto de forças quanto de fragilidades — e é nesse vaivém que a vida encontra seu ritmo.


6. “Pense positivo que tudo dará certo”


O otimismo tem sua função: anima, encoraja, abre caminhos. Mas quando elevado a fórmula universal, perde o sentido. Há momentos em que a tristeza ou a indignação são mais férteis do que o sorriso forçado.

Não foi o otimismo cego que garantiu nossa sobrevivência, mas a capacidade de prever riscos, reagir e aprender com o medo. O mundo não exige positividade constante, mas lucidez diante da complexidade.


7. “Você dá conta”


Dizer isso pode ser estímulo em situações pontuais. Mas como regra, a frase mascara abusos. O elogio à resiliência tornou-se modo de naturalizar sobrecargas e transformar exploração em virtude.

A verdadeira coragem, talvez, esteja em admitir limites. “Dar conta” não é suportar sempre; é também reconhecer a hora de parar, pedir ajuda, recusar o fardo. Resiliência é recurso, não sentença.


Conclusão


Esses slogans da autoajuda se mantêm porque são fáceis de repetir, cabem em slides, em posts, em conversas rápidas. Mas a vida não se deixa capturar por fórmulas.

Ela é feita de contextos, de acasos, de limites, de vínculos. O risco dessas frases não é a motivação que carregam, mas a simplificação que impõem. Entre o brilho do slogan e a densidade da vida, é sempre melhor escolher a segunda.

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