Diagnóstico: entre o cuidado e o controle

 Diagnóstico: entre o cuidado e o controle


Introdução


O diagnóstico psiquiátrico ocupa um lugar ambíguo na história: é, ao mesmo tempo, promessa de cuidado e instrumento de controle. Michel Foucault, ao estudar o nascimento da psiquiatria, mostrou como a medicina mental esteve ligada, desde o início, a mecanismos de disciplina social — separando “normais” e “anormais”, definindo quem podia falar de si e quem precisava ser silenciado.


Décadas depois, a jornalista Rachel Aviv, em Estranhos a nós mesmos, retoma essa ambivalência. Para ela, o diagnóstico pode ser libertador — dar nome ao sofrimento, abrir acesso a tratamento —, mas também pode aprisionar — limitar identidades, reforçar estigmas e moldar narrativas de vida.



1. A visão de Foucault sobre o diagnóstico


Foucault descreve o surgimento da psiquiatria como parte de um movimento maior de medicalização da vida. No século XVIII, a “loucura” deixa de ser apenas desvio moral ou espiritual e passa a ser um objeto de saber médico — mas esse saber vem acompanhado de poder, capaz de excluir, isolar e normalizar condutas. O diagnóstico, nesse sentido, não é só descrição de uma condição; é também uma decisão política e social sobre quem pertence ou não à ordem estabelecida. Para Foucault, o perigo está em naturalizar essa autoridade médica como neutra, quando ela é atravessada por valores e interesses do seu tempo.



2. Como Rachel Aviv vê o diagnóstico


Aviv mostra que o diagnóstico não é neutro: ele molda identidades, reorganiza memórias e expectativas. Pode trazer alívio, ao nomear a dor, retirar a culpa e criar pertencimento, mas também pode aprisionar, ao reduzir a pessoa a um rótulo fixo, reforçar estigmas e induzir comportamentos esperados. Ela enfatiza a distância entre a experiência vivida e a forma como ela é descrita pelo discurso médico. O impacto depende do contexto social, da forma como o diagnóstico é comunicado e da possibilidade de a pessoa participar da construção dessa narrativa sobre si.



3. O uso de remédios


Aviv não demoniza psicofármacos e reconhece que eles podem ser essenciais para estabilizar crises e aliviar sintomas. Sua crítica recai sobre o uso automático e descontextualizado, quando o medicamento substitui a escuta e a compreensão do contexto de vida. O remédio pode ser uma ferramenta de autonomia, mas também pode se tornar um instrumento de silenciamento, quando a prioridade é conter sintomas sem entender suas causas.



4. Cultura, acolhimento e a importância da escuta


As doenças mentais não são apenas condições biológicas ou transtornos individuais; elas são profundamente afetadas pela cultura em que a pessoa vive e pelo acolhimento — ou rejeição — que recebe do seu entorno. A forma como uma sociedade enxerga a loucura, a fragilidade emocional ou a diferença molda não só o diagnóstico, mas também as possibilidades de cuidado e de recuperação. O acolhimento, ou a falta dele, pode intensificar ou aliviar o sofrimento. Uma escuta verdadeira, livre de julgamentos, é capaz de legitimar a experiência da pessoa e ajudá-la a se reconstruir.


Aviv mostra que, em muitos casos do livro, o problema não foi apenas o diagnóstico ou o tratamento inadequado, mas o fato de que as pessoas não foram realmente ouvidas. Suas histórias foram reduzidas a sintomas, seus contextos ignorados, suas interpretações sobre si mesmas desconsideradas. Esse apagamento narrativo cria uma distância insuportável entre o que a pessoa vive e o que o sistema enxerga — e, nesse abismo, a solidão e a desesperança encontram terreno fértil.



5. A proposta de Aviv para um melhor cuidado em saúde mental


Rachel Aviv não oferece uma solução única ou um protocolo pronto para tratar transtornos mentais. Ao contrário, ela deixa claro que não existe resposta simples. O que emerge de suas investigações é a necessidade de escutar as pessoas de forma integral, sem reduzir suas histórias a sintomas. Isso significa ouvir de fato o que elas têm a dizer, reconhecer o impacto do contexto social e cultural, e não subestimar experiências subjetivas que não cabem nos manuais clínicos.


Ela sugere que o tratamento se beneficie quando o diagnóstico é usado como ponto de partida — e não como sentença —, permitindo que a narrativa da própria pessoa tenha espaço para coexistir com a linguagem médica. A ideia é manter o cuidado aberto à complexidade, aceitando que, para muitos, a recuperação não é linear e envolve múltiplas dimensões: biológica, psicológica, social e relacional.


Estranhos a nós mesmos: cuidado ou prisão?


Michel Foucault mostrou que a psiquiatria nunca foi neutra: ela nasce como promessa de cuidado, mas também como forma de controle.

Rachel Aviv, em Estranhos a nós mesmos, retoma essa ambivalência. Para ela, o diagnóstico pode libertar — dar nome à dor, abrir acesso a tratamento — ou aprisionar — reduzir a identidade a um rótulo, apagar histórias e contextos.


As doenças mentais não existem no vazio. São moldadas pela cultura, pelo acolhimento que recebemos e pela forma como somos ouvidos. No livro de Aviv, o que mais fere não é só a crise ou o sintoma, mas o silêncio: pessoas que não foram escutadas, apenas enquadradas.


Talvez o primeiro passo para cuidar seja simples — mas radical: escutar de verdade, sem pressa e sem julgamento.


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