Como redes sociais e inteligência artificial estão reprogramando nossa mente
Como redes sociais e inteligência artificial estão reprogramando nossa mente
E por que mudanças no cérebro não começaram agora — outros fatos que também o transformaram radicalmente
Por Daniel Carvalho
A ideia de que o ser humano tem uma mente estável e imutável é enganosa. Nosso cérebro é uma construção biológica, sim — mas profundamente histórica, plástica, cultural. Ele foi moldado por fogo, por palavras, por máquinas, por imagens. E agora, pelas telas.
Hoje, vivemos um momento crítico: nunca estivemos tão conectados e, paradoxalmente, tão fragmentados. A atenção, esse bem escasso, foi sequestrada. A memória, terceirizada. A dúvida, substituída por respostas automáticas.
Mas antes de sermos moldados por algoritmos, fomos atravessados por outras transformações igualmente radicais. Este texto traça uma breve história dessas inflexões: da fogueira à IA, da escrita ao feed, do mito ao clique.
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1. O fogo que nos deu tempo para imaginar
Cozinhar alimentos foi um divisor de águas. Permitiu que nosso corpo usasse menos energia para digerir e mais para pensar. O intestino encurtou, o cérebro cresceu.
Essa adaptação, segundo o antropólogo Richard Wrangham, foi decisiva para o salto cognitivo do Homo sapiens. A cozinha foi a primeira tecnologia que transformou a biologia — e, junto com ela, a imaginação. Sob o fogo, nasceram os primeiros mitos.
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2. A linguagem: do som à abstração
A linguagem simbólica reorganizou o cérebro humano. Com ela, pudemos nomear o que não está presente, planejar o futuro, narrar o passado e imaginar o invisível.
Steven Pinker chamou a linguagem de “tecido do pensamento”. Não era só comunicação: era estrutura mental. Áreas como o córtex pré-frontal e as regiões de Broca e Wernicke foram ativadas. O humano se tornou o animal que narra — e que crê no que conta.
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3. Tabus, rituais e o nascimento do coletivo
A linguagem, sozinha, não bastava para manter a ordem social. Por isso, surgiram códigos, tabus e religiões — estruturas que criavam pertencimento e puniam desvios.
Segundo Yuval Harari, “Deus é uma hipótese moral”. E ele foi útil. Rituais fortaleceram o grupo. A culpa moldou o comportamento. O cérebro passou a responder não só ao que era real, mas ao que era simbólico. A religião foi a primeira política afetiva.
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4. A escrita: o pensamento fora do corpo
Com a escrita, o pensamento passou a existir fora do sujeito. A memória deixou de depender da oralidade. Passamos a registrar, acumular, abstrair.
Maryanne Wolf explica que essa transição alterou profundamente o cérebro: da escuta emocional à leitura analítica. Surgiu o “leitor profundo” — aquele que rumina as ideias. A escrita não foi apenas uma ferramenta, mas uma revolução interior.
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5. A prensa: multiplicar para emancipar
A invenção da prensa por Gutenberg transformou a escrita em artefato coletivo. Livros deixaram de ser objetos sagrados e passaram a circular entre comuns.
A imprensa permitiu alfabetização em massa, crítica institucional e, com o tempo, o nascimento do sujeito autônomo e racional. Como diria Zygmunt Bauman, “a imprensa criou o público” — ou seja, um coletivo leitor, participante, político.
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6. Razão como tecnologia de controle
Com o Iluminismo, a razão tornou-se o novo padrão de autoridade. A ciência ocupou o lugar dos mitos. O corpo virou máquina. A emoção virou ruído.
Esse modelo, embora libertador em muitos aspectos, reprimiu outras formas de saber — como a intuição e o afeto. “Penso, logo existo”, disse Descartes. Mas talvez tenhamos esquecido de sentir — e resistir.
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7. O Google e a era da externalização total
A internet, especialmente os mecanismos de busca, mudou a forma como lidamos com o conhecimento. Saber passou a ser localizar, não lembrar.
Nicholas Carr aponta que o cérebro se adapta: se a informação está à mão, ele economiza energia. O “efeito Google” desincentiva a memória, encoraja o salto entre janelas. O saber fragmenta. A profundidade se perde.
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8. Redes sociais: entre dopamina e pânico moral
As redes não apenas conectam: elas programam. Por meio de notificações, curtidas e algoritmos, moldam o comportamento afetivo e cognitivo do usuário.
Byung-Chul Han alerta: “O que atrai a atenção não é a verdade, é o escândalo”. O conteúdo que performa é o que indigna. A timeline se torna campo de batalha. A escuta desaparece. A crítica vira impulsividade.
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9. Inteligência artificial: quando pensar cansa
Com a IA, o pensamento se automatiza. Delegamos decisões, respostas, escolhas. Perdemos a experiência do erro — que era o início da sabedoria.
Leandro Karnal resume: “A IA não rouba empregos — rouba decisões”. Ao eliminar a hesitação, ela acelera a resposta, mas esvazia o juízo. A dúvida — esse traço fundamental da consciência — vira falha de sistema.
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10. O cérebro entre o abismo e a presença
Vivemos entre dois modos mentais:
Um cérebro profundo, treinado para contemplar, refletir, sustentar o silêncio.
E um cérebro performático, moldado para publicar, reagir, acumular estímulos.
David Brooks escreveu: “A pressa é a nova ignorância.”
Talvez estejamos diante da maior mudança não tecnológica — mas ontológica — da história da mente.
A questão é: quem resistirá à velocidade?
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