Como estamos desaparecendo das redes: por escolha ou reinvenção
Como estamos desaparecendo das redes: por escolha ou reinvenção
por Daniel Carvalho
1. Dois caminhos, um mesmo incômodo
Vivemos um momento curioso na história recente da comunicação digital. As redes sociais, que nasceram como promessa de conexão permanente, começam a ser ocupadas de maneira mais cautelosa. Os dados ajudam a explicar o fenômeno: no Brasil, 67% dos usuários afirmam ter reduzido o tempo de uso ou até desativado contas temporariamente, e o principal motivo apontado é a busca por bem-estar e saúde mental.
Esse afastamento não significa um êxodo total. Há também quem permaneça, mas sob novas regras. Em vez de se expor de modo irrestrito, recalcula-se o espaço de fala, a forma de se mostrar. É uma presença tática, mais próxima de uma negociação contínua do que de uma entrega irrestrita.
O que une esses dois grupos — os que saem e os que ficam — é a percepção de que a lógica da visibilidade constante tem custos altos, e que o controle sobre a própria imagem e tempo precisa ser retomado.
2. Sair para preservar-se
Para aqueles que se afastam, o gesto é deliberado e, muitas vezes, terapêutico. Fechar o aplicativo, desativar o perfil ou desaparecer por semanas é uma maneira de interromper o ciclo de comparação constante e a obrigação tácita de parecer interessante o tempo todo. A ausência, nesse contexto, não é um vazio, mas um recurso: um modo de suspender o ruído para escutar a si mesmo.
3. Ficar, mas mudar o jogo — o refúgio que emerge da curadoria consciente
Entre os que permanecem, o que se vê é uma reorganização silenciosa. O palco aberto dos feeds perde relevância, e as conversas se deslocam para os bastidores digitais — mensagens privadas, grupos restritos, “Close Friends”. O próprio Adam Mosseri, diretor do Instagram, já reconheceu que hoje compartilha-se mais em privado do que em público, sinal de que a intimidade deixou de ser exceção para se tornar regra de sobrevivência online.
O que cresce é uma arquitetura de proteção: nudes de visualização única, álbuns que impedem prints, stories que desaparecem em 24 horas, Reels que não permanecem no perfil. Não se trata apenas de recursos técnicos, mas de dispositivos de controle sobre o que se deixa ver — e, sobretudo, sobre o que não se deixa guardar.
Os dados acompanham a mudança: o engajamento médio nos posts do feed caiu 28% em um ano, atingindo apenas 0,50%. Ao mesmo tempo, plataformas como o BeReal, que limitam a exposição, conquistam usuários dispostos a trocar alcance por autenticidade: só 9% publicam diariamente, mas o fazem de forma mais restrita e espontânea.
O jogo permanece, mas com outras regras — agora determinadas pelo próprio usuário, e não mais pelo algoritmo.
4. O fio que une os dois movimentos
Seja pela saída deliberada ou pela curadoria rigorosa, o que está em curso é uma renegociação do espaço público digital. A hipervisibilidade — antes vista como capital social — é hoje confrontada pelos seus custos emocionais.
Assim, uns fecham a porta e atravessam para outra rua; outros permanecem no mesmo cômodo, mas ocupam um canto, falando apenas com quem escolhem. Não é ausência pura, nem presença plena. É, antes, um silêncio habitado, em que cada gesto de aparição é também um gesto de preservação.
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