Ana Suy - expectativas
Trecho do livro: A gente mira no amor e acerta na solidão”
“É interessante destacar que a palavra esperança é uma tradução possível
de elpis, do grego, que também pode ser traduzida como “expectativa”, uma palavra que tem sido amaldiçoada atualmente. As sugestões de felicidade contemporânea nos insinuam que não devemos criar expectativas, uma vez que seriam elas as responsáveis pelas nossas frustrações. Nesse sentido, o ideal seria que vivêssemos sem imaginar, sem criar fanfics, sem esperança – e o que viesse da vida, então, poderia ser mais bem aproveitado, uma vez que a realidade não seria decepcionante.
Daí vale depreender dois pontos:
1. Com raras exceções que devem ser comemoradas, a realidade é decepcionante! Uma vez que o vazio do desejo nos leva a uma fértil criação, a realidade, limitada, não pode dar conta de nos satisfazer tanto assim. Por isso, nossas experiências com a vida deixam sempre um resto que não se satisfaz, um tom a menos de satisfação do que gostaríamos. A pegada da vida é justamente essa, poder fazer disso causa de desejo, e não de sofrimento. Explico: ao encontrarmos uma frustração, em vez de lamentar a realidade, é mais interessante quando podemos endereçar essa energia para a próxima atividade. No entanto, no funcionamento neurótico, nos fixamos na frustração, que é um lugar quentinho e conhecido (o que costuma parecer mais seguro do que o desconhecido risco de encontrar outra coisa).
2. A gente não vive sem criar expectativas. Sem expectativas não há motivos para sair de casa, não escovamos nem os dentes, nem sequer abrimos os olhos. É disso que se faz a vida, de expectativas – um nome para a fantasia, talvez! A gente vive porque espera algo da vida. Ama porque espera algo do ser amado. Trabalha porque espera algo do nosso esforço. Expectativa e esperança têm uma relação etimológica com espera, que é bem o que se aprende a fazer nos caminhos do que chamamos de desejo, em psicanálise.
É de aprender a esperar que se faz uma infância, que se faz uma vida. Mas não um aprender a esperar no sentido de ficar paralisado, mas no sentido de poder gozar desse tempo de espera. No fim das contas, a vida nada mais é do que o tempo que a gente tem enquanto espera a morte. É melhor que possamos fazer bom uso desse tempo de espera.
Gosto muito do termo “felicidade clandestina”, que Clarice Lispector utiliza em seu conto de mesmo nome. Nesse texto, Clarice se torna uma menina que, ansiando pelo amanhã, quando poderá ler um livro muito desejado, escreve: “Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam”.17 O conto (que é lindíssimo, eu sugiro que leiam se ainda não o fizeram e que releiam já o leram) segue com a menina, que não consegue o livro, então volta no dia seguinte à casa da menina que iria lhe emprestar o livro, mas não empresta – e no outro e no outro, aos poucos transformando seu entusiasmo da espera em angústia. É que convém pôr um limite no desejo, que, sem encontrar satisfação, mesmo parcial (a única possível), avinagra o vinho. Quem nunca viu uma criança que espera, espera, espera, até que, diante da demora excessiva, se põe a chorar? Ou mesmo um adulto, que, com uma e outra e mais uma e mais outra frustração, “de repente” se fez o copo que transborda? Quem vê de fora alguém se descontrolar com determinada situação pensa que é desproporcional uma reação de agressividade ou de choro, mas quem a vive, por vezes, só não aguentou mais ali naquele momento uma série de frustrações anteriores. Precisamos de algum tipo de satisfação. Aquilo que não encontramos pela via do prazer, encontramos pela via do sofrimento.
Bom, mas o conto segue com a pequena menina, finalmente, conseguindo o livro desejado, o que a leva a uma tentativa de postergação da imensa alegria que sente ao ter em mãos o objeto. Então, Clarice escreve:
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardava o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade.
Eis uma bela explicação sobre o desejo. Lacan afirma que o desejo é desejo de desejo, colocação essa que parece enigmática, mas que Clarice faz um uso literal de seu nome e a clareia. Vemos no conto que, ao postergar a realização do desejo, que seria, finalmente, ler o livro, a menina encontra certa felicidade. Desejo é desejo de desejo na medida em que desejar nos satisfaz. O desejo é um buraco ao contrário, que, quanto mais tentamos tamponar, mais abrimos.
Você já deve ter ouvido falar que “o melhor de uma viagem é esperar por ela” ou que “o melhor de uma viagem é voltar para casa”. Tais frases apontam para a imensa satisfação que há em torno de uma realização propriamente dita. Quem não tem casa não viaja, e quem simplesmente viaja, sem espera, geralmente é por algum imprevisto indesejado.”
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