Capítulo 4 – Fuck Me Now Love Me Later
Por Daniel Carvalho
Esse é um capítulo em construção
Capítulo 4 – Fuck Me Now Love Me Later
“And every time you speak her name, does she know how you told me you’d hold me until you died? ‘Til you died, but you’re still alive” – Oughta Know, Alanis Morissette
A escola tinha sido como uma casa pequena onde eu sabia onde ficava cada porta. A faculdade era um campo aberto. E, pela primeira vez, percebi que podia me mover sem bater em paredes invisíveis, e foi com essa mistura de liberdade e desamparo que cheguei ao meu primeiro dia de faculdade
No primeiro dia de faculdade foi como se o mundo tivesse lavado o rosto antes de me receber. O corredor estava limpo de memórias, só o eco dos passos novos, a luz morna entrando pelas janelas, o cheiro de algo fresco, ainda sem nome. Eu respirava devagar, como quem prova manga pela primeira vez. Entrei com passos lentos e um pouco encabulados, movido por um medo ancestral, ou talvez pelo receio de quem atravessa, pela primeira vez, os espaços da maturidade.
Hoje sei que aquele medo ainda me veste, às vezes de camisa social, às vezes de gravata. Ele não some; apenas troca o tecido e o jeito de apertar minha pele. Talvez seja a única peça de vestuário que nunca deixei de usar. A cada nova etapa, é o mesmo frio na barriga.
Havia um rosto que sorriu para mim no meio da multidão. Foi breve, quase tímido, mas nele coube a promessa de que a solidão não duraria o dia inteiro.
Sentei, abri o caderno, e a caneta, tão nova quanto eu ali, deslizou pela página branca. Não escrevi nada importante, mas foi como se assinasse um pacto secreto: a vida pode ser leve. Ao menos hoje. Ao menos agora.
Nos primeiros dias em Odontologia, tudo se oferecia com uma nitidez quase suave, não mais a lâmina fria, mas a luz oblíqua que entra por uma janela esquecida. Os corredores, ainda frios, guardavam um silêncio que não ameaçava; o cheiro de limpeza das salas não era hostil, antes um sinal de que ali, entre paredes lisas, algo começava.
Havia um compasso nos passos, não o da fuga, mas o da espera, como se cada um andasse à procura de um rosto que lhe sorrisse.
Eu tinha passado em segundo lugar e os olhares chegaram devagar, como quem pousa a mão num tecido para sentir sua textura antes de falar. Não eram flechas, eram véus, e, entre eles, percebi que havia um nome que me precedia, mas não me pesava.
E foi então que vi Elisa outra vez. Havíamos feito o curso pré-vestibular juntos, alguns meses que ficaram guardados num canto da memória, e agora, entre rostos novos, lá estava ela. Bonita, sim, bonita como se aprende nos retratos, mas havia algo que a afastava da mera convenção. A boca, larga, não se guardava em silêncios polidos: era curva plena, feita de lábios cheios, tão dispostos ao riso rápido quanto à palavra ágil. A pele, branca de porcelana, parecia ter armazenado um calor secreto, como se o sol a tivesse escolhido para repousar.
Havia momentos em que o olhar se abria, e uma claridade o inundava. Então vinham as covinhas, e os olhos, num súbito, brilhavam como os de uma criança que ainda crê que a vida é um território sem muros. Assim, com um sorriso aberto e fácil, ela me devolveu ao grupo, e o grupo deixou de ser estranho, como se bastasse um gesto para transformar o outro em alguém que sempre esteve ali.
Junto com ela conheci Isabel, um pouco mais alta, como se carregasse no corpo uma elegância natural, dessas que não se ensaiam. Bonita de um jeito calmo, sem alarde, como a luz que entra pela janela no fim da tarde. Havia doçura no modo como inclinava levemente a cabeça para ouvir, como se cada palavra tivesse peso e merecesse lugar. O sorriso não era apressado; surgia aos poucos, e quando vinha, parecia trazer com ele um ar mais leve, uma pausa na pressa do dia. Ao seu lado, mesmo o silêncio parecia confortável, como se fosse um gesto de amizade.
O círculo cresceu, não por esforço, mas como crescem as coisas que têm raiz. Eu tinha carro, e levá-los era como conduzir um pequeno cortejo de vozes e risos. Minhas anotações, escritas sem intenção de destino, passavam de mão em mão, e nesse trânsito de páginas havia um pacto silencioso, quase respirado: aqui, você está dentro. Aqui, você pertence.
Tudo parecia estar confortável. Tão confortável quanto se pode estar nos primeiros anos da vida adulta, quando ainda se acredita que tudo, se não vai dar certo, ao menos fará sentido algum dia. As amizades estavam firmadas, os dias seguiam uma ordem suportável e, para melhorar tudo, comecei a namorar.
Mas uma frase da escultora Camille Claudel, amante de Rodin que enlouqueceu por amor, não saía da minha cabeça: “Há sempre algo ausente que me atormenta.” Era como se faltasse uma peça essencial da minha constituição, um vazio que nem a rotina, nem os afetos, nem a promessa de futuro conseguiam preencher.
Foi quando Felipe entrou na história. Até hoje, penso no nosso encontro como uma dessas coincidências tão minuciosamente alinhadas que quase fazem crer num roteiro oculto, silencioso, tramado ao fundo.
Lembro-me com precisão da primeira vez que o vi. Corredores da faculdade de Feira de Santana, dia de vestibular. Um barulho baixo, constante, como um zumbido de folhas ao vento, preenchia o ar. Ele estava ali. Uma sombra cortava o rosto, o nariz levemente empinado, como se fosse um traço a lápis sobre um papel fino, e, sobre ele, uma luz filtrada que fechava o instante num enquadramento involuntário. Era bonito, mas a beleza maior vinha do fato de não saber disso — um detalhe quase imperceptível, a distância mínima entre o que se é e a incerteza dessa imagem. Uma espécie de pedido de desculpa silencioso por existir.
Não nos aproximamos de imediato e não me dei conta de quando me apaixonei por Felipe. A paixão, essa coisa que não se escolhe, já se instalara antes que eu pudesse nomeá-la. Mal o conhecia, e já o percebia como se percebe o caminho que, uma vez encontrado, não se quer mais deixar.
Ele vinha de longe. Não apenas de quilômetros, mas de um interior mais profundo, uma cidade pequena, tão afastada do que chamamos mundo que parecia existir só no mapa íntimo de quem a traz no sotaque, nos gestos, no modo de encostar os olhos no outro. E, no entanto, estava ali, no mesmo corredor, respirando o mesmo ar. Eu também. Não por destino, não por acaso — talvez por essa mistura opaca que empurra os corpos para um ponto sem aviso, como folhas convergindo para um mesmo redemoinho.
Vista de longe, a coincidência parecia obedecer a um alinhamento secreto, como se o mundo guardasse certas engrenagens invisíveis para mover apenas quando algo precisa acontecer. Mas naquele momento era só isso: dois corpos no mesmo pedaço de tempo e espaço, respirando o ar saturado de calor e expectativa dentro de um ginásio preparado para a prova.
Nada visível aconteceu. Nenhum gesto marcante, nenhuma frase para ser lembrada. Ainda assim, havia a sensação incômoda e silenciosa de que alguma coisa, sem nome, tinha sido colocada em movimento.
Talvez eu tenha romantizado esse momento. Talvez tenha sido só um rapaz bonito cruzando um corredor. Mas é assim que a memória trabalha: repinta com cores que não estavam lá. Aos 44, já não caio tão fácil nessas armadilhas da memória — ou caio, mas sabendo que são armadilhas.
Naquela manhã abafada, com o sol derramando-se sobre o cimento quente de Feira de Santana, Felipe estava entre vozes tensas, cadernos gastos e olhares que se desviavam por vergonha ou cansaço. Imóvel e, ainda assim, intenso. Usava uma camisa comum, marcada com o nome de uma festa popular de Caturama — uma cidade tão pequena que parecia inventada apenas para justificar aquele instante.
Não era só beleza. Era uma calma antiga, como a de uma pedra que atravessa estações sem ceder, misturada a algo de vertigem — o mesmo desconforto que sentimos ao encarar o sol antes de fechar os olhos. O olhar dele, quando vinha, prometia uma história inteira, mas a guardava ao mesmo tempo.
Não foi desejo, nem ternura. Foi anterior a isso. Um reconhecimento imediato, sem motivo.
Meses depois, reencontrei Felipe na fila da matrícula da UFBA. A espera era longa, os nomes chamados devagar, um a um. Mas quando o vi, o tempo se abriu de novo, como se a ordem natural tivesse dado lugar a outra lógica, mais íntima. A fila deixou de ser fila; tornou-se apenas o cenário silencioso para um reconhecimento mútuo.
Conversamos com naturalidade. Um assunto puxava o outro, e quando não havia mais assunto, o silêncio se instalava sem peso. Usei o nome de um amigo em comum como ponte — frágil, mas suficiente para encurtar a distância.
Algo começou a nascer ali. Não como uma certeza, mas como a luz que entra por uma fresta e revela, pouco a pouco, a forma de um quarto fechado há muito tempo. Era um movimento quase imperceptível, mas impossível de ignorar.
Começamos a nos encontrar na biblioteca. Às vezes, chegávamos juntos; outras, ele já estava lá quando eu entrava. Sempre no mesmo lugar. Entre nós, um espaço medido em páginas abertas, cadernos rabiscados e toques ocasionais de ombros, como se nenhum dos dois quisesse afastar-se por completo. Eu prolongava o caminho até a mesa para ganhar alguns segundos de presença.
Havia uma harmonia estranha naquele descompasso. Algo entre o susto e a tranquilidade, como quando se ouve uma música que parece familiar desde antes de existir.
Foi nesse convívio silencioso que reparei, pela primeira vez, na marca sob a camiseta. Um traço escuro que aparecia e desaparecia quando ele se inclinava sobre o livro. Estranhei. Felipe, vindo de uma cidade tão pequena, parecia carregar uma história muito mais previsível do que aquela sombra de tinta na pele. No meu imaginário, tatuagem não combinava com o jeito quieto dele.
Até então, tatuagem para mim era coisa de exagero ou timidez: símbolos inflando músculos, dragões cuspindo fogo, ou corações minúsculos escondidos atrás da nuca. A dele não. A tatuagem de Felipe tinha uma geografia própria, escondida sob a camiseta, como se tivesse nascido com ele. Não mostrava nada diretamente; sugeria. E talvez fosse por isso que me atraía tanto.
Um dia, no meio das fórmulas e dos livros abertos, minha mão tocou sua coxa. Não foi calculado. Era para parecer acidente. Era para recuar logo depois. Mas não recuei. E ele não afastou. Fiquei ali menos de um minuto, num espaço que era ao mesmo tempo medo e desejo, hesitação e entrega.
Depois disso, voltamos a estudar. Como se nada. Como se tudo.
No dia seguinte, ele não apareceu.
O mundo em volta seguia: passos no corredor, conversas arrastadas, o movimento previsível dos minutos. Mas dentro de mim havia algo suspenso, como se qualquer gesto pudesse despencar o que eu tentava segurar. Eu sorria, mas o sorriso era uma vertigem, um último galho antes da queda.
Afundei na cadeira e fiquei ali, com a lembrança do toque repetindo-se na minha cabeça como um eco teimoso. Por que eu tinha feito aquilo? Impulso, desejo, necessidade de existir antes que a razão pudesse controlar? Eu sabia. E, ao mesmo tempo, não sabia.
Ele voltou alguns dias depois. Sentou-se ao meu lado, como se nada tivesse acontecido. A cadeira, antes apenas um objeto, tornou-se um ponto de ancoragem. Com esse gesto simples, quase banal, devolveu-me o ar.
Perguntou se eu era gay. Não houve escândalo, nem urgência — apenas a curiosidade direta de quem encontra algo já sabido e, mesmo assim, precisa ouvir a confirmação. O olhar era atento, mas sem julgamento. Quase calmo.
O tempo, então, se estendeu, denso, como se cada segundo fosse um espaço a atravessar. Eu sabia a resposta. Mas saber é diferente de dizer. Há verdades que queimam na pele antes de encontrar voz.
Dizer sim era admitir o desejo e arriscar tudo o que ainda estava em suspenso. Dizer não era proteger o pouco que restava intacto, ao custo de negar a centelha. No fim, a resposta veio sem cálculo, como se tivesse subido de um lugar mais fundo que a consciência: sim.
Ele tocou minha perna. Com a mesma leveza com que, dias antes, eu havia tocado a dele. Não era só contato físico — era reconhecimento.
Marcamos de estudar na minha casa. Foi simples, natural, como se fosse apenas mais um encontro para revisar fórmulas. Mas havia algo nos olhares que se demoravam um pouco mais, nos silêncios que se estendiam além do necessário. Era como ler um livro não pela história, mas pelo intervalo entre as palavras.
Quando ele chegou, o livro ficou esquecido sobre a mesa, como um objeto fora de lugar. A porta fechada não era um detalhe — era um pacto tácito. Eu sabia o que ia acontecer, embora fingisse surpresa.
Começamos a tirar a roupa um do outro sem cerimônia, movidos mais por urgência do que por delicadeza. Não havia o ritmo cuidadoso dos filmes, nem cenário montado para a cena. Era corpo chamando corpo.
Nosso primeiro beijo foi desajeitado e, por isso mesmo, verdadeiro. Não sabíamos exatamente o que estávamos fazendo, mas havia uma força bruta e honesta naquele encontro. Ele me tocou com cuidado no início, como quem explora território novo. Doeu. Depois, ficou bom. E quando ficou bom, já não havia volta.
Gozei rápido, e não senti vergonha. Senti como quem acende uma fogueira com duas pedras e entende que, a partir dali, algo começa. Ele não quis que eu o penetrasse — talvez pelo susto, talvez pelo excesso de intensidade que viu em mim naquele momento. Ainda assim, o desejo estava ali, latejando.
Quando foi a vez dele, fiz como um aluno aplicado diante do professor mais bonito da escola. Não pelo meu prazer — esse já tinha passado —, mas pelo dele. Era uma forma de oferecer algo, de selar um pacto que eu não sabia nomear.
Depois disso, começamos a namorar. Sem declarações formais ou anúncios. Hoje, olhando para trás, percebo que foi o gesto mais inocente e mais perigoso da minha vida: começar algo sem sequer perguntar se sabíamos como terminar.
Mas apenas seguimos juntos, como se a decisão já estivesse tomada antes mesmo de ser percebida. Felipe tinha menos amigos que eu, mas não passava despercebido. Havia nele uma presença que marcava os espaços, mesmo quando não dizia nada.
Decidi contar aos meus amigos. Não por coragem, mas porque esconder começou a doer mais do que temer. Falar foi como abrir uma janela num quarto abafado — o ar entrou de repente, quase frio, e eu respirei como se fosse pela primeira vez.
As reações foram menos dramáticas do que imaginei. O mundo não desabou, ninguém me virou o rosto. Pelo contrário, parecia haver um certo alívio em me ver inteiro, sem a dobra do segredo.
Com o tempo, nossas vidas se entrelaçaram em pequenas rotinas: festas com amigos, viagens curtas, conversas planejando um futuro que nunca chegou a existir. Havia uma alegria simples nisso — como se estivéssemos montando uma casa invisível, só nossa, no espaço entre um dia e outro.
Mas nada disso era suficiente. Eu temia perdê-lo como se ele fosse a peça que faltava na minha engrenagem e, sem ele, nada fizesse sentido. Estar apaixonado é como viver em estado de alerta. Eu, que sempre acreditei que bastava amar para tudo se resolver, percebi que não sabia amar com moderação. Sentia demais. Desejava demais.
Joguei-me como um desenho animado se atira no abismo, certo de que, de algum modo, o chão apareceria. Mas não apareceu. E era impossível para mim ser de outra forma. Eu não sabia desejar pouco. E cada vez que ele se afastava um pouco — por cansaço, por distração —, eu me aproximava com mais força, como se pudesse impedir o inevitável.
A viagem à Europa já estava marcada antes do fim. Ainda havia planos espalhados sobre a cama: passagens, mapas, roteiros imaginários. Era o meu sonho desde sempre — caminhar por cidades que até então só existiam nos livros, nos filmes, no olhar de quem já tinha estado lá. Para Felipe, vindo de tão longe e de tão pequeno, era quase impensável. Mas ele disse sim. E esse sim foi suficiente para que eu acreditasse.
Ficamos juntos por dois anos. Dois anos que pareceram, ao mesmo tempo, uma vida inteira e um instante breve. Até que, de repente, ele se apaixonou por outro. Não houve anúncio, nem briga. Apenas aconteceu.
O término foi seco, direto. Eu ouvi as palavras como quem escuta um idioma estrangeiro sem tradução — entendendo o sentido, mas sem aceitar. Fiquei ali, imóvel, até que a consciência me alcançasse e a dor se espalhasse. Então implorei. Pedi que ficasse. Que não desistisse. Eu o olhava como quem tenta convencer o passado a mudar. Mas o passado é imóvel; fica parado nos observando, inalterável.
Mas também houve raiva. Uma raiva áspera, sem poesia, que me queimava a boca por dentro. Porque você me deixou. Não como se larga um objeto esquecido numa gaveta, mas como quem descarta algo que ainda pulsa, que ainda te olha. Você me largou sabendo que eu te amava com tudo o que eu tinha, e me deixou como se o amor fosse uma moeda gasta, inútil para qualquer compra. Eu quis quebrar todas as suas fotos, cuspir no seu nome, apagar cada traço seu de mim. E mesmo assim, mesmo no auge dessa fúria, eu ainda te queria de volta. Talvez essa tenha sido a parte mais humilhante.
Quando ele disse “acabou”, não foi voz , senti como se parte de mim fosse arrancada de forma brusca e irreversível. A cada frase, era como se um saco de cimento caísse no concreto. Uma mistura bruta de desespero e raiva tomou conta de mim.
Perguntei a mim mesmo o que tinha feito para afastá-lo. Talvez fosse a minha ansiedade constante, a tensão subcutânea que me acompanhava em tudo. O medo de perdê-lo, que me fazia ter ciúmes demais, querer agradá-lo demais, e depois exigir também demais dele. Minhas brigas porque ele não me ligava quando dizia que ligaria. A espera por uma resposta me corroía.
Eu tinha ciúmes quando ele concordava com os amigos e discordava de mim. Era como se todo o peso do meu vazio caísse sobre a relação. No fundo, eu sabia: parte do que nos separou foi a minha incapacidade de me sentir inteiro sozinho.
Hoje, aos 44 anos, me pergunto se mudei. Ainda não sabia que a corda do ciúme, quando esticada demais, não arrebenta: estrangula devagar. Abro o diário como quem abre uma caixa esquecida no fundo do armário, esperando encontrar pó — e encontro sangue. Ao ler, percebo que talvez tenha mudado menos do que gostaria, e que a ferida, embora antiga, ainda arde como se tivesse sido aberta ontem.
Você me deu os únicos hiatos de felicidade em que acreditei que o amor me devolveria a um estado sonhado de ausência de dor que nunca vivi desperto. Como se a peça que faltava em mim pudesse voltar ao seu lugar original e tudo enfim ficasse bem. Mas ela não voltou.
Eu tive você e fomos felizes como nunca imaginei que duas pessoas pudessem ser, mas era como se houvesse um buraco no meu peito. Eu vivia com a sensação de que esse instante acabaria no momento em que você descobrisse quem eu realmente era — sem mais camadas, sem defesas.
Perdi você da única forma que você sempre me disse que poderia acontecer: para mim mesmo. Para o meu ciúme. Para o meu excesso. Você só se apaixonou por outro porque já não suportava mais viver comigo.
Sou como um erro que sobrevive apesar de tudo, porque também somos aquilo que perdemos.
Como quem confessa um crime, te contei todos os meus pecados e você não pôde me perdoar. Todos os meus delírios de ciúme, minha incompletude. Seu olhar ausente, moldado na medida exata do meu corpo. Mal nos conhecemos e já nos percebíamos como pessoas que, uma vez encontradas, não poderiam mais se separar. Mas nos deixamos, sem sequer termos nos encontrado por inteiro.
Um coração pode se partir e continuar batendo. Mas como pedir para alguém ficar quando a decisão já foi tomada? O que me resta são memórias cruas que se dissolverão. Você se foi, prometendo voltar. Eu esperei, com aquela esperança desesperançosa que já sabia ser inútil. Seu olhar já me havia dito, antes mesmo das palavras, que não voltaria.
Ficou apenas esse chão onde estou, exatamente do tamanho que sou, nenhuma aura a mais. Como quem desaba, não como quem acorda, me deparo com sua ausência, mergulho na sensação de não retorno, uma memória inútil descrevendo imagens de poucos minutos atrás. O corpo exigia o choro, e eu me negava a esse direito. Essa brutalidade talvez faça sentido. Sou um rapaz ansioso e desagradável.
Agora estou sozinho, exatamente como nos meus planos. Não lembro mais como era antes da dor; talvez esse momento nunca tenha existido. Ultimamente tenho afirmado que estar só é o que desejo, mas agora me soa mais falso que um jardim da Disney. Só fantasmas têm me visitado, mas você me deu vontade de amar. Tudo poderia ser de outra forma, mas o tempo é irredimível.
Adeus, meu amor. Prometo que não vou chorar. Meu coração se partirá em mil pedaços antes que chore mais uma vez. As pessoas imprevistas não podem fazer parte do mundo real. Viva la vida.
Fecho o diário e, por um instante, penso que o que senti na hora foi ainda pior. Porque então eu implorei que ele ao menos não cancelasse a viagem. Que fôssemos. Mesmo assim. Mesmo quebrados. Mesmo mortos por dentro. E fomos.
Fui com ele como quem atravessa uma casa em chamas para salvar um objeto sentimental. Nas fotos, eu sorria. Nos espelhos dos hotéis, ajeitava o cabelo. Escolhia a melhor roupa para o café da manhã. Tudo calculado para manter a aparência. Por dentro, era outra história.
Ele percebia. E desviava.
Londres. Paris. Bruges. Viena. Cidades que, antes, pareciam promessas; agora, molduras para uma esperança que murchava em silêncio. Caminhávamos pela cidade como quem atravessa um sonho já acordado. Tudo estava acabado, mas os gestos ainda nos encontravam, órfãos de dono, como cartas enviadas a um endereço que não existe mais. Eu pedia amor com o corpo. Ele respondia com silêncio — o mais cortês e, por isso, o mais cruel.
Antes disso, houve a farsa do noivado: alianças improvisadas, padrinhos escolhidos em tom de piada, um restaurante mexicano. Nossa encenação particular de vida adulta. Eu acreditei. Ele — não sei. Mas lembro de, antes de dormir num hostel qualquer, sentir o nervosismo do discurso, a alegria confusa, a fé quase infantil. Adormeci sorrindo. Acordei com o gosto amargo de quem percebe que acreditou demais.
Não era só amor o que nos unia. Era medo.
Medo de ficar sozinho com os próprios buracos.
E, quando ele enfim foi embora, implodi.
Fiquei menor. A vida perdeu a nitidez.
Tudo parecia coberto por um lençol cinza. O amor não terminou num dia exato. Foi apagando-se, como vela no fim da cera.
Eu chorava o tempo todo, como se meu corpo tivesse se tornado apenas um recipiente de perda.
Segui com ele pela Europa como um cão sem dono — nos aeroportos, nos quartos, nos restaurantes. Dormíamos lado a lado, separados por um mar de ressentimento e um cobertor de convenções. Eu o tocava sem tocar. E, quando tocava, ele virava o rosto.
Me anulei com elegância. Fiz o papel do ex-namorado fiel. Fingia leveza, mas por dentro carregava cada silêncio como uma pedra nova no fundo do estômago. Amar, naquela época, era rastejar com dignidade. Era morrer um pouco a cada gesto, sem nunca deixar de sorrir.
Ele já não era inteiro muito antes do término. E talvez tenha sido justamente por isso que eu tentei ser mais. O problema é que, quando alguém tenta ser o dobro por dois, inevitavelmente termina sendo metade. E metade é tudo o que sobra quando a ilusão já não se sustenta.
Da parta dele já não havia amor, mas ocupávamos o mesmo espaço como móveis de uma casa abandonada. O corpo era a última mentira que nos unia.
Voltei da Europa carregando sacolas com presentes que nunca entreguei — e a certeza, agora irrefutável, de que o amor também termina. Do que restou, apenas um silêncio que se estende como uma sala mal iluminada. Quando o silêncio não é partilhado, ele vira sentença.
O anel ainda repousa naquela caixa pequena, de pano grosso. Parece dormir. Mas não dorme. Vibra. Chama baixinho. Ecoa o que não se quer lembrar.
A dor virou costume. Um modo de andar. De calar.
E o costume, uma segunda pele — uma que não coça, mas abafa o corpo por dentro. Ele deixou de me querer como se fosse simples. Sem cena, sem sangue. Apenas uma ausência crescendo nos cantos, como mofo, até que respirar virou respirar ferrugem.
Tranquei um semestre. Não foi o curso — foi a alma que, num gesto sem alarde, se encolheu em algum canto escuro do peito. E ninguém notou.
Comecei a sair. Sem plano, sem destino, apenas uma sucessão de noites que se encadearam sem que eu percebesse. Procurava nos corpos alheios uma silhueta precisa para preencher a ausência. No início, dizia a mim mesmo que era distração — um desvio inocente, como a mão que recolhe poeira de uma mesa apenas para sentir a aspereza sob a pele. Hoje percebo que distração era apenas outra forma de luto — e das mais barulhentas. Mas a verdade — a única que resiste quando o resto se dissolve — é que, noite após noite, eu buscava apenas um reflexo. É quase engraçado pensar que eu acreditava estar no controle. Aos 44, vejo que naquela época eu não buscava ninguém — só tentava me encontrar no corpo de outro.
Mais tarde, percebi que era orgulho: uma tentativa de reafirmar que ainda podia deslocar peças no tabuleiro. Mas a verdade — a única que resiste quando o resto se dissolve — é que, noite após noite, eu buscava apenas um reflexo. Alguma evidência silenciosa de que ainda existia. Nunca encontrei.
Felipe veio primeiro. O riso dele tinha a nitidez de uma lâmina antiga: perdera o fio, mas conservava o brilho. As palavras saíam rápidas, saltando como fagulhas no atrito da pedra, e o efeito era imediato — não se ria pelo conteúdo, mas pela velocidade com que a resposta chegava, quase um reflexo condicionado.
Depois, Alexandre. O cuidado dele não era abrigo; era contenção. O sorriso, milimetricamente desenhado, funcionava como uma armadilha: cordial à primeira vista, mas calculado para abrir um espaço exato, um silêncio onde eu cedia antes mesmo de compreender. Manipulava palavras como um artífice que conhece a flexibilidade do material. Quando o vento mudava, era sempre na direção que ele determinara.
Por fim, Bruno. Um afeto que se dissipava antes de se fixar, como vapor num dia frio. Não demonstrava interesse real pela ciência, pela arte ou pela política, mas mantinha, com convicção tranquila, as opiniões mais comuns do seu círculo, adaptando-se apenas quando esse círculo já havia mudado. Ou melhor: não mudava. As ideias mudavam por ele, aproximavam-se como a moda que dita a curvatura do chapéu ou o corte da roupa.
Eu — eu me tornei um vulto bem vestido.
Seduzia como quem acende uma vela em um quarto vazio.
E apagava logo em seguida.
Era vaidade, sim.
Mas também desespero.
Desejo de ser visto sem ser engolido.
As festas — ah, as festas!
Veladas cerimônias do excesso.
Vodka, Madonna, gargalhadas altas demais para não esconder alguma coisa.
E sempre — sempre — um silêncio escondido atrás da porta do banheiro, onde, de vez em quando, alguém chorava.
Talvez eu.
Talvez todos nós.
E naquele instante — breve e elástico como um pensamento que não encontra saída — algo em mim parou.
Não por desistência, mas por cansaço.
Eu não sabia, mas Rodrigo estava ali.
Naquele mar de luzes, vozes e fumaça, ele existia a poucos metros, movendo-se por entre os corredores invisíveis de uma festa que eu pensava dominar.
Não me viu. Eu não o vi.
E, ainda assim, algo me atravessou.
Uma sensação estranha, como se houvesse no ar um olhar que eu não percebia, mas que me percebia inteiro.
Só muito depois soube o nome.
Só muito depois entendi que havia, naquela noite, um encontro silencioso, feito de pura ausência.
Voltei para casa sem saber.
Carregava apenas o peso de uma exaustão bonita e triste,
como quem dança até o fim da música e, de repente, se descobre sozinho no centro do salão.
Às vezes, no meio do excesso e do barulho,
o que salva é exatamente aquilo que não acontece —
o que fica à margem, à espera,
até que o tempo decida revelar.
Talvez seja por isso que, anos depois, ainda lembro dessa noite sem lembrar dela. Rodrigo é mais o fantasma de uma possibilidade do que um fato.
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