Capítulo 3: Infância: território estrangeiro
Livro Caixa Preta: em construção. Inclusive esse capítulo.
Capítulo 3: Infância: território estrangeiro
When you call my name, it's like a little prayer - Madonna
Dos meus três primeiros anos de vida em San Diego, o que ficou é o ruído opaco das coisas que talvez não tenham acontecido. Tudo o que me chega agora é um rumor denso, uma vibração indistinta, como o som que as conchas fazem quando encostadas ao ouvido. A memória é um bicho estranho que às vezes apenas se esconde debaixo da cama. Ela se disfarça de lembrança para contar uma história que o corpo acredita. E eu, mesmo sem saber disso à época, já desconfiava. Porque algumas imagens parecem lembranças, mas carregam o peso onírico do que nos foi contado com tanto detalhe que o corpo acreditou.
Um vulto. Um cheiro qualquer de cereal com leite gelado. Uma voz feminina que arrastava vogais em inglês, rápida demais, quase líquida e saía da televisão. Era a companhia mais constante da minha mãe que talvez buscasse nela algo que pudesse fazê-la esquecer o peso do silêncio.
O harbour tinha leões-marinhos. Íamos todos os dias. Eram como se fossem pedras que respiravam. Eles gritavam como se quisessem nos lembrar que que viver era barulhento. Empilhavam-se sobre si mesmos, exalando sal, corpos úmidos de sol. A água era fria, e o vento vinha com sal e gritos de gaivota. Mas não sei se eu sentia. Acho que só anotava no corpo. O corpo sabe antes da gente.
A memória, como um editor distraído, salta passagens. Omite. Reorganiza. Ela não se dá por inteira. Ela recorta. Mas há imagens que sobrevivem com uma nitidez incômoda, como as prateleiras iluminadas da Toy 4 Us. A loja de brinquedos brilhava como uma nave. Um templo de plástico e luzes artificiais. Carrinhos, aviões, monstros, bonecos que falavam. O desejo inteiro enfileirado. E todos os dias, eu ganhava um presente. Um carrinho. Todos os dias. A exceção era o cotidiano. Como se o amor de minha mãe, desnorteado, tivesse escolhido o excesso como disfarce da ausência de meu pai. Como se fosse possível abafar um vazio com barulho colorido.
O que é o amor, senão o gesto de dar antes que o outro peça? Ou de dar para calar o que não se pode escutar?
A infância, quando vestida demais de sonho, prende. Quando nua demais, fere. A minha oscilava ora encantamento, ora espinho.
Minha mãe, lindíssima, vestida como modelo de catálogo, aparece numa fotografia em preto e branco que sobrevive. Estamos na Disney de Los Angeles, e eu visto uma roupa de bicho. Ela sorri, como alguém que não sabe que está sendo observada. Seu sorriso não pertence àquele instante. Eu estou pequeno demais para entender qualquer coisa, mas hoje olho para aquela imagem e penso: o sonho americano era um plano feito por quem não sabia o que buscava.
A infância, agora sei, é um país estrangeiro. A gente só percebe depois que esquece a língua que falava.
Meu pai? Uma sombra em trânsito. Veio com ela tentar alguma coisa no outro lado do mapa. Saíram do Brasil, escaparam, diriam os que medem coragem com régua torta, e não encontraram um novo ponto de partida. Mas encontraram o que muitos encontram: o desacerto, a urgência, a falência lenta da esperança. A pressa, o silêncio, a falta de chão. Separaram-se. Voltaram. E voltaram partidos. Mas ainda assim voltaram. E voltaram como se voltassem do naufrágio. E foi assim que meu pai permaneceu: ausente, mas intacto. Um silêncio que durava.
E o que resta do que se parte?
O que sobra do que não soube ficar inteiro? Li uma vez que a ruína não é o fim. É o que insiste em continuar mesmo depois de tudo. E foi assim que meu pai ficou: não estando.
Presente como ausência.
Intacto como um silêncio que atravessa os anos sem pedir licença.
Aprendi a ler sozinho. Não sei como. Só sei que as letras começaram a me olhar de volta. Não fui à escola. A língua estrangeira vindo da boca de todas àquelas crianças me expulsava do convívio. Eu chorava. Chorava de um choro que vinha do chão. Minha mãe cedeu. As letras me apareceram como insetos brilhantes nas embalagens, nas propagandas, nas legendas.
Depois disso, a infância seguiu como seguem os trens desgovernados da memória, se esfarelando como pão seco sobre a mesa. E tudo virou uma coleção de imagens: como fotografias esquecidas num envelope amarelado.
Montar um quebra-cabeça apenas para, logo em seguida, desmontá-lo talvez a memória seja isso: uma dança circular, uma tentativa de reconstituir o que já não é, de tocar com dedos ansiosos aquilo que, no instante em que se alcança, escapa. É retornar ao mesmo ponto de onde se saiu, como se o tempo desse voltas em torno de si mesmo: sem saber direito o que fazer com os pedaços. A memória é esse jogo que a gente joga contra o tempo. E perde. Porque não há manual. Só restam os estilhaços. Vasculho minhas lembranças como quem abre um armário antigo. Há cheiro de madeira velha, de mofo, de infância. E um fundo falso, onde se escondem coisas que não queriam ser vistas. E dentro dele, pedaços que não queriam ser vistos, mas que insistem em voltar. A memória não obedece calendários. As memórias não respeitam cronologia. O que dói não envelhece. O que marca, volta. . A memória não é linear. Ela não se move como uma flecha, mas como um pássaro em círculos: pousa, levanta, paira no ar e volta ao mesmo lugar, mas ligeiramente deslocada.
Havia, na infância, uma casa amarela. Uma criança estrangeira dentro dela, condenada ao riso pelos colegas de escola. E havia a criança que havia voltado da terra estrangeira, San Diego, que trazia no corpo a lembrança de outra língua, de outro sol com uma luz diferente nos olhos, como se ainda guardasse nos ossos o calor de outro sol. Carregava também a dor, é claro. Mas não apenas a dor. Havia também o prazer de existir por conta própria. Nos livros. Nas letras das músicas pop. Havia as palavras, pequenas bóias lançadas sobre um mar interior. Lia para não desaparecer. Como quem constrói um dicionário só seu, para nomear as coisas antes que elas o engolissem.
Minha avó dizia que eu pensava demais. E pensar, para ela, era um jeito perigoso de se perder, como andar por um campo aberto sem bússola, sem amparo. Mas eu já andava assim. M Pensava, sim, até escorregar por dentro. O pensamento me tomava por dentro, escorria como água pelos vãos da alma. Escorria pelas costuras da alma Porque pensar era sair do corpo e me ver de fora: torto. Pensar era um caminho perigoso. Via todos tão amados sem esforço.
Minha avó era feita de regras invisíveis, e gestos definitivos mas incontornáveis. Ela era o silêncio que impõe. Meu avô me preferia e essa preferência era uma desordem, uma falha no equilíbrio da casa.
E por isso ela me punia. Protegia o meu primo como se ele fosse de vidro. A mim, tratava como pedra. Como se o amor que eu recebia fosse um erro de cálculo que precisava ser corrigido. Recusava presentes como se recusasse minha existência. Corrigia meus gestos. Apontava minhas mãos. Ria do meu corpo sem talento para os jogos. O amor da casa era uma balança instável: para que um brilhasse, o outro precisava escurecer. Ele era feito de uma engenharia delicada. Tudo precisava se equilibrar mesmo que à custa de um de nós. E eu, sem saber, aprendi desde cedo que o afeto era um sistema de trocas. Uma balança de pesos e contra pesos.
Na adolescência, além de viado e estranho era bom aluno. Talvez por isso. O saber, escudo. O sorriso, máscara. Silencioso, tímido, mas os professores me viam. O de História me adorava. E um dia ouvi o que não devia: falavam de mim como quem fala de um bicho raro. Um menino que pedia desculpas por existir. E era verdade. Porque viver, ali, era um pedido de desculpas. Desculpem-me por ser.
Nas aulas de História, comecei a fazer perguntas. As perguntas brotavam como flores num jardim interditado. Perguntas que cresciam como ervas daninhas num quintal esquecido. Sobre Deus. Sobre culpa. Sobre as mentiras úteis. Lia com urgência, como quem respira, mas em casa não havia escuta. O silêncio da casa não suportava interrogações. Era um tipo de surdez elegante, intransponível. Questionava o que não devia: cruzes, coros, dogmas. Mas em casa, as perguntas batiam numa parede surda. O silêncio da casa não suportava interrogações. Era uma espécie de surdez polida, hereditária.
Meu avô, que escrevia um livro para provar que Deus existia prova racional, ele dizia, como se Deus precisasse ser convencido de si mesmo não suportava meu ceticismo e me chamava de comunista com a solenidade de quem acusa uma heresia. Trocava cartas com homens importantes. Fazia questão de dizer que alguns tinham ganhado o Nobel, como quem exibe uma condecoração no peito. E me citava nelas, como se eu fosse um prodígio: o pequeno Bossuet. Um dia, no jardim, eu disse que não queria que ele morresse enquanto eu não crescesse. E ele riu. Cacófago, disse ele. Palavra de gente grande. E eu, orgulhoso, achava que por um instante havia tocado no brilho das coisas grandes.
Mas as perguntas, ah, as perguntas começaram, a desfiar a costura entre nós. Eu queria entender. E também queria ser amado. Meu orgulho de menino que quer ser visto começou a tropeçar nos olhos dele, que já se cansavam. Meu avô, já velho, tentava sustentar uma casa feita de certezas, mas a casa ruía. As palavras que ele escrevera com tanto esforço viravam pó.
E entre nós, o que havia de afeto e admiração, esgarçou-se. Como tecido puxado demais. Há vínculos que não se rompem de uma vez. Primeiro afinam. Depois, silenciam. Até que, enfim, desfazem-se. Porque o fim raramente chega com um estouro. Ele se instala devagar. Como o silêncio depois de uma pergunta que ninguém quer responder.
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