Amar é Sentir ou Escolher Todos os Dias?
Amar é Apenas Sentir ou Escolher Todos os Dias?
1. O mito romântico
Durante séculos, repetimos como um refrão que “amar não é raciocinar, é sentir”. A frase, embalada por canções e romances, nos apresenta um mito sedutor: o amor seria um território alheio à lógica, um fenômeno puro, espontâneo, quase mágico. Nesse imaginário, basta sentir — e, quando a chama apaga, é sinal de que “acabou”.
2. O perigo dessa visão
Essa concepção cria a expectativa de que o amor deva sustentar-se sozinho, como uma vela que nunca se apaga. Esconde o fato de que vínculos não se mantêm apenas no território das emoções intensas, mas na decisão cotidiana de permanecer. Amar, quando visto apenas como impulso, se torna frágil diante das inevitáveis crises.
3. O amor como escolha
O psicanalista Christian Dunker, em A Arte de Amar, sublinha que o amor não se apoia no encantamento eterno, mas na capacidade de reinventar o vínculo diante das imperfeições inevitáveis — do outro e, mais difícil ainda, das nossas. Essa reinvenção exige presença real, escuta sem pressa, coragem para enfrentar crises, generosidade para cuidar e humildade para ser cuidado.
4. Desejo cultivado
Escolher o amor não significa matar o desejo. Pelo contrário: significa alimentá-lo conscientemente. O desejo que nasce do impulso é como um rio de cheia — intenso, mas instável. O desejo que é cultivado com atenção, responsabilidade e limites se transforma em um leito profundo por onde o afeto pode fluir com constância.
5. A lição da filosofia
A filosofia nos lembra que o amor é tanto eros quanto agápe: impulso e cuidado, paixão e compromisso. Simone de Beauvoir dizia que amar é “reconhecer o outro como um sujeito tão legítimo quanto nós”, o que implica atravessar fases de desconforto, frustração e diferença. É aí que a escolha entra como força criadora.
6. O olhar da literatura
Da intensidade de Tolstói à introspecção de Clarice Lispector, a literatura nos mostra que o amor é feito de intervalos, silêncios e negociações — não apenas de clímax. Nelson Rodrigues, com seu olhar agudo, expunha a hipocrisia de uma sociedade que idealiza o amor e, ao mesmo tempo, o teme na sua complexidade.
7. O amor como verbo ativo
O mito do “apenas sentir” é confortável porque nos exime de trabalho. Mas amar é verbo ativo: constrói-se no dia a dia, nos gestos mínimos, nas conversas difíceis, na reinvenção depois da raiva, no retorno após a distância. É dançar entre o arrebatamento e a rotina, entre o improviso e o cuidado.
8. Conclusão: o equilíbrio necessário
Talvez, no fim, a verdadeira pergunta não seja se amar é sentir ou escolher, mas como sentimos ao escolher e como escolhemos ao sentir. Um amor que se recusa a pensar pode morrer de excesso de impulso; um amor que só pensa pode morrer de falta de chama. Entre esses extremos, está a arte — frágil, mas possível — de permanecer.
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