A ilusão da liberdade sexual no Grindr

A ilusão da liberdade sexual no Grindr


Liberdade ou compulsão? O desejo como mercadoria.



1. A promessa de liberdade 

disfarça o vício de controle


O Grindr se apresenta como território livre: você escolhe, você busca, você decide. Mas essa liberdade é, muitas vezes, um véu que encobre uma lógica compulsiva. O que parece autonomia pode ser apenas outro modo de sujeição — ao desejo do outro, ao ideal de corpo, ao jogo da aprovação. Você abre o aplicativo não porque quer, mas porque precisa. Precisa ver se ainda existe. Se ainda é desejável. Se ainda conta.



2. O mercado de corpos e o fetiche da exclusão


A interface é de mercado. E, num mercado, há produtos, vitrines, preferências e descarte. A linguagem é clara: “sem gordos”, “sem negros”, “sem afeminados”. E assim, o desejo deixa de ser encontro para virar triagem. Não há espaço para a surpresa do outro — só para a confirmação do mesmo. Aquilo que chamamos de gosto pessoal é, muitas vezes, apenas o reflexo bem domesticado da violência histórica.



3. A estética como algoritmo de opressão


Nos aplicativos, o corpo que aparece é o corpo que se enquadra. A juventude é cultuada. A magreza, exigida. A pele clara, valorizada. E cada exclusão estética se justifica com um “é só preferência”, como se o desejo fosse inocente — e não atravessado por séculos de dominação. A beleza se torna política. E política, no Grindr, quase sempre significa: quem pode desejar e quem deve ser invisível.



4. O sexo como anestesia — e não como prazer


Muitos entram no aplicativo dizendo que querem apenas sexo. Mas o que se vê é um ritual repetitivo, por vezes vazio, onde o prazer serve mais para abafar a solidão do que para celebrar o corpo. O gozo é rápido. O outro, descartável. O aplicativo é aberto várias vezes ao dia, não por tesão — mas por angústia. O desejo se torna compulsão. E o prazer, um alívio momentâneo que logo precisa ser reativado.



5. A solidão ampliada pelo excesso


Nunca tivemos tantos corpos disponíveis — e nunca nos sentimos tão sós. O paradoxo do Grindr é cruel: quanto mais opções, maior a sensação de descartabilidade. Estamos cercados por rostos, perfis, torços, promessas. Mas poucos encontros chegam ao toque, ao olhar, ao tempo. Estamos juntos, mas ausentes. A liberdade do app termina na porta do quarto. E, depois que o corpo vai embora, o vazio volta a gritar.



6. A lógica da recompensa intermitente


O Grindr funciona como um cassino afetivo. Às vezes, o match é bom. Às vezes, a conversa encaixa. Às vezes, o sexo compensa. E por isso, continuamos voltando. O algoritmo não promete felicidade — promete chance. E essa chance basta para alimentar o vício. Seguimos abrindo, deslizando, esperando que uma notificação resolva o que, no fundo, sabemos que não é responsabilidade de um app resolver.



7. O que realmente estamos buscando?


No fundo, talvez o que desejamos não seja apenas sexo. Mas validação. Presença. Testemunha. O Grindr se tornou, para muitos, o único lugar onde há resposta rápida ao chamado do desejo — ainda que seja uma resposta fria, apressada, superficial. Postamos uma foto, escrevemos três palavras — e aguardamos que alguém diga: “eu te vi”. Às vezes, isso basta para sustentar o dia. Às vezes, isso dói mais do que o silêncio.

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