Natureza Humana: Essência ou Construção?
Natureza Humana: Essência ou Construção?
Foucault, Chomsky, Haidt e o abismo entre biologia e cultura
Por Daniel Carvalho
1. A pergunta que atravessa séculos
Existe algo como uma “natureza humana”? Ou o que chamamos de “humano” é só mais uma invenção construída, controlada, manipulada?
2. O duelo de ideias: Foucault vs. Chomsky
Essa pergunta dividiu dois dos maiores pensadores do século XX: Michel Foucault e Noam Chomsky, num histórico debate gravado na TV holandesa em 1971. De um lado, o linguista racionalista; do outro, o filósofo arqueólogo do poder. Dois homens, dois mundos. Dois modos de pensar o próprio pensamento.
3. Chomsky e a essência inata
Chomsky acredita que nascemos com uma estrutura mental inata. Uma gramática universal. Um senso embutido de justiça, empatia, criatividade.
Para ele, é possível descobrir o que é propriamente humano e, a partir disso, julgar se as instituições e sociedades estão em acordo com essa essência.
4. Foucault e a desconfiança histórica
Já Foucault desconfia. Para ele, não há essência, só história.
Não há verdade pura, só relações de poder que se travestem de neutralidade.
Ele afirma: toda instituição é atravessada por forças de dominação. Escola, medicina, justiça, polícia, psiquiatria, universidade, mídia, tudo serve, direta ou indiretamente, para normatizar o corpo, o comportamento, o saber.
Não existe justiça universal fora de um sistema de poder.
E é esse sistema que define quem é louco, criminoso, saudável, útil ou “humano demais para ser confiável”.
5. A crítica à ideia de “universal”
A divergência entre os dois se torna ainda mais evidente quando Foucault questiona:
“O que vocês chamam de natureza humana talvez seja apenas o efeito de estruturas históricas transitórias.” Em outras palavras: A natureza humana talvez seja um reflexo da cultura e não o contrário. E quando uma ideia se afirma como “universal”, o que ela está fazendo, muitas vezes, é silenciar o que diverge.
6. Corpo, cultura e reprogramação
Esse impasse atravessa até hoje a filosofia, a psicologia, a antropologia. A pergunta persiste: há algo que nos defina como humanos? A resposta mais sensata talvez esteja no meio do caminho: somos corpo e cultura. Somos natureza moldada pela linguagem. Somos memória orgânica em constante reprogramação.
7. Haidt: um elo possível entre biologia e moral
Nesse contexto, entra pensamento do psicólogo contemporâneo Jonathan Haidt, que propõe uma abordagem integradora:
Segundo ele, temos predisposições morais biológicas como cuidado, justiça, lealdade, respeito à autoridade mas essas predisposições ganham forma e valor diferente em cada cultura.
Ou seja, há fundamentos comuns. Mas os conflitos começam quando esquecemos que nem todos os humanos foram criados dentro da mesma bolha moral.
8. Reforma ou desconstrução?
E então surge outra questão:
Queremos reformar o mundo ou desconstruí-lo inteiro? Chomsky acredita que é possível tornar o sistema mais justo. Foucault vê isso como ilusão: a justiça que conhecemos já nasce dentro de um jogo de exclusões. E Haidt nos lembra que, antes de julgar o outro, é preciso entender os pilares morais que o sustentam.
9. A dúvida como única certeza
No fim, talvez a única resposta verdadeira seja a dúvida e talvez o gesto mais humano seja justamente esse: continuar perguntando.
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