Régua Invisível: Inteligência Artificial e o Silêncio dos Vencidos

Régua Invisível: Inteligência Artificial e o Silêncio dos Vencidos


“A história não é feita apenas com fatos, mas com aquilo que escolhemos esquecer.”— Inspirado em Adorno e Walter Benjamin


Por Daniel Carvalho 


1. A régua invisível da inteligência artificial


Vivemos cercados por assistentes digitais, algoritmos inteligentes, respostas rápidas e “neutras”. Mas quase ninguém se pergunta: quem escolhe o que é verdade?


Por trás das respostas da IA, há uma régua invisível — um filtro de validação construído por um recorte técnico, cultural e político essencialmente ocidental. Essa régua privilegia aquilo que é verificável segundo a ciência tradicional, o que vem de instituições hegemônicas como ONU, OTAN, OMS e universidades de elite, e a ideia de que neutralidade é sinônimo de objetividade técnica — quando, na verdade, é apenas um ponto de vista. Essa régua foi moldada por séculos de colonialismo epistêmico, onde a única realidade válida é aquela reconhecida pelos centros de poder.


2. O alerta de Adorno e Benjamin permanece atual


“A história é contada pelos vencedores” — frase muitas vezes atribuída a Benjamin, mas que também ecoa no pensamento de Adorno. O que esses pensadores alertaram — e que ainda vale para o mundo da IA — é que toda narrativa dominante é também uma escolha sobre qual dor merece ser escutada. A inteligência artificial, por mais inovadora que seja, repete estruturas de poder que filtram, hierarquizam e apagam saberes outros. O saber indígena, o conhecimento popular, as vozes dissidentes da geopolítica e a história contada pelos oprimidos permanecem à margem da validação automatizada.


3. O mito da neutralidade como técnica de exclusão


Ao se esconder atrás da suposta neutralidade, a inteligência artificial transforma o conhecimento em uma técnica de exclusão. Mesmo quando não há má intenção, o resultado pode ser o mesmo: o apagamento. Isso se traduz no silêncio sobre o sofrimento das minorias, no descrédito a versões alternativas da história e na redução da dúvida a desinformação automática. Como dizia Adorno: “A barbárie moderna não é o oposto da razão — é o seu desdobramento sem reflexão.”


4. Descolonizar a régua: um imperativo ético


A tarefa não é rejeitar a inteligência artificial — mas descolonizar sua régua de medição. Isso significa exigir que ela reconheça que há outras formas de saber, escute vozes fora do consenso técnico e permita a complexidade e o conflito das versões. Quem define a régua também define quem é medido — e quem é invisível.


5. Conclusão: pensar com lucidez e não com conforto


A inteligência — artificial ou não — deve ser ética, crítica e plural. Porque há mais lucidez no desconforto de quem questiona do que na certeza de quem apenas repete.


“A verdade não está onde está a maioria. Está onde alguém, ainda que sozinho, se recusa a esquecer.”

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