Beyoncé: Quando o Espetáculo Rouba o Grito
Quando o Espetáculo Rouba o Grito
Quando o oprimido vence sem mudar as regras que oprimem: Beyoncé, meritocracia e o espetáculo do poder negro
Por Daniel Carvalho
1. A estética da conquista
Beyoncé Beyoncé foi eleita pela Billboard a cantora mais influente do século XXI. É impossível negar a importância artística, simbólica e política da sua trajetória. Tem voz potente, presença arrebatadora e técnica impecável. Seus vídeos são cinema, cuidadosamente roteirizados, visualmente arrebatadores, com narrativas inovadoras. Suas performances monumentais. E o marketing transforma cada lançamento num evento global. Beyoncé ao cantar constrói mitos. Controla sua narrativa como quem escreve um evangelho pop. E ainda assim, por trás do brilho, há algo de ancestral pulsando. Ela ampliou o repertório de referências afrocentradas no mainstream, deu visibilidade a artistas, tradições e estéticas antes apagadas, e fez tudo isso com excelência. Ela é, sem dúvida, um dos maiores fenômenos culturais do nosso tempo.
Ela e Jay Z falam sobre racismo, opressão, apagamento histórico.
E a crítica está lá: viva, pulsante, esteticamente arrebatadora.
Beyoncé, em especial, tem sido uma das grandes responsáveis por devolver ao centro da cultura pop a beleza, a força e a ancestralidade dos corpos negros.
Em shows como o do Coachella, em álbuns como Lemonade e Black is King, ela resgata histórias, estilhaça estereótipos e reinscreve, com orgulho e dor, a presença negra em espaços que por séculos a baniram.
2. A engrenagem que continua intacta
Mas há uma tensão que não pode ser ignorada. Ao mesmo tempo em que denuncia o racismo, Beyoncé reproduz e consagra os valores do sistema que mais oprime a maioria da população negra: o capitalismo meritocrático.
Jay-Z, em The Story of O.J., denuncia o racismo estrutural com estética de desenho animado. Fala da prisão econômica, da ilusão da liberdade negra sob controle branco. Mas ao fim, entrega a fórmula: “Credit is more important than throwing money in a strip club.” Ou seja, aprenda a jogar como os ricos e vença.
Mas quem disse que o jogo merece ser mantido?
3. A tirania do mérito
Beyoncé canta: “I dream it, I work hard, I grind ’til I own it.” A frase se tornou um mantra da cultura do esforço: poderosa, sim, mas também carregada de armadilhas. Porque nem todos têm as mesmas condições para sonhar. Nem todos partem do mesmo ponto de largada.
E poucos, pouquíssimos, chegam ao “own it”.
Como nos lembra o filósofo Michael Sandel em A Tirania do Mérito, a meritocracia moderna vende uma ficção sedutora: a de que quem vence, venceu por mérito; e quem fracassa, fracassou por culpa própria.
Esse discurso, além de cruel, invisibiliza o papel da sorte, das estruturas sociais e das desigualdades históricas especialmente as que atravessam a cor da pele.
Beyoncé se tornou o ápice dessa lógica: a exceção celebrada como regra. O triunfo dela, embora simbólica e esteticamente reparador, pode reforçar a ideia de que se ela conseguiu, todos podem.
Mas e os milhões que não conseguem? Ficam fora do enquadramento. Não viram imagem. São invisibilizados.
Ela não está propondo outro mundo. Apenas vencendo dentro deste.
3. A denúncia que vira vitrine
A denúncia à opressão se esvazia quando apoia vozes opressoras.
Beyoncé, por exemplo, se apresentou em uma festa privada da família do ditador líbio Muammar Gaddafi. Elas não se propõem a mudar o jogo, mas para vencê-lo sob as mesmas regras.
A crítica existe, e é essencial.
Mas sem questionar as engrenagens econômicas que mantêm a exclusão racial, ela corre o risco de se tornar decorativa. Um grito moldado para caber no palco, sem eco nas ruas. Uma performance de resistência que termina quando as luzes se apagam.
4. Corpos que não brilham
Ela denuncia a invisibilidade histórica dos corpos negros e faz isso com força simbólica. Mas ao mesmo tempo, sua narrativa consagra uma meritocracia que só enxerga os que vencem.
Corpos fora do padrão, vozes sem palco, trajetórias que não brilham seguem invisibilizadas.
A dor só vira beleza quando vem embalada em performance de excelência.
E, assim, mesmo sem querer, Beyoncé reforça uma ideia cruel:
quem não aparece, quem não vence, quem não é desejado, não merece ser visto.
No lugar da solidariedade, instala-se o desejo de estar no lugar do outro. Não para mudar o jogo mas para vencê-lo sob as mesmas regras.
5. Do oprimido ao opressor simbólico
Frantz Fanon escreveu:
“Eles não parecem interessados em reinventar o sistema, mas sim em alcançar seu topo e reconfigurá-lo à sua imagem.”
6. Conclusão
Há uma diferença entre ocupar o topo e transformá-lo. Entre cantar sobre liberdade e redistribuir poder. Entre ser exceção e ser revolução.
Beyoncé e Jay-Z são o que o capitalismo gosta de exibir:
figuras negras bem-sucedidas que confirmam que “é possível”, sem que nada mude. Eles não querem destruir o sistema. Querem ser os reis dele. E isso não é libertação.
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