Entre esquerda e direita, quem realmente puxa os fios?

Entre esquerda e direita, quem realmente puxa os fios?


O teatro dos fantoches


Por Daniel Carvalho


1. Dividir para reinar: uma estratégia velha, mas eficiente


Desde Maquiavel, no século XVI, sabemos que um governante não precisa apenas conquistar, ele precisa dividir.

Fragmentar o corpo social é mais seguro do que enfrentá-lo inteiro.

Essa fórmula atravessou os séculos, adaptou-se a cada tecnologia e hoje desfila em hashtags, jingle de campanha e transmissões ao vivo.


Não se trata apenas de esquerda ou direita, mas de alimentar antagonismos que impeçam a formação de um inimigo comum: o poder real.

Nos EUA, esse jogo atende por Democratas e Republicanos; aqui, por partidos que trocam de nome, mas não de patrocinadores.

No fundo, como ironiza o filme Waking Life, são apenas “fantoches da esquerda” e “fantoches da direita”, pendurados nos mesmos fios.


2. O teatro da escolha


O cenário é democrático, mas o roteiro é restrito.

O voto oferece alternativas, mas dentro de um cardápio previamente selecionado.

Mudam os intérpretes, mantém-se a estrutura, e essa estrutura responde não a você, mas a quem banca a encenação.


Campanhas milionárias não se pagam com ideologia, mas com doações vultosas.

E quem paga, cobra.

Enquanto as manchetes se concentram em guerras culturais, a economia subterrânea segue seu curso: lucros recordes, paraísos fiscais, contratos blindados.


3. A falsa dualidade


O verniz muda de cor, mas a madeira é a mesma.

Progressistas defendem minorias e causas ambientais, mas aprovam orçamentos militares e sustentam alianças com corporações predatórias.

Conservadores evocam Deus, pátria e família, mas protegem bilionários, precarizam o trabalho e bloqueiam redistribuição de renda.


Ambos alimentam a polarização como quem mantém um motor sempre ligado.

Não se trata de resolver as tensões, mas de mantê-las úteis: distraem, dividem e desviam a raiva para o vizinho, não para o financiador da peça.


4. A ilusão democrática


O que chamamos de democracia é, em muitos casos, uma coreografia ensaiada.

Votamos a cada quatro anos, transferindo nosso poder a um representante que, na prática, responde a outro soberano: o capital.


Há uma engrenagem invisível que nos empurra e que só pararia se todos parassem.

Mas não para, porque gira movida pelo desejo de consumo e pela promessa de ascensão individual.

O cidadão tornou-se cliente; o sucesso, sinônimo de acúmulo; a universidade, fábrica de profissionais treinados para servir ao mercado.


Antes, a opressão tinha rosto: generais, ditadores, censores.

Hoje, veste logotipos e se senta em conselhos administrativos.

A Coca-Cola atravessa fronteiras sem pedir licença; um migrante pobre enfrenta muros e vistos.

ONGs substituem políticas estruturais; caridade privada ocupa o lugar de direitos públicos.


Enquanto discutimos quem “venceu” o último debate, decisões sobre terras, salários e guerras são tomadas por quem não precisa de voto, apenas de lucro.


5. Cair do palco


Acordar, talvez, seja reconhecer que a encenação sempre foi dirigida de fora.

Liberdade não é escolher entre dois fantoches: é cortar os fios.

Mesmo que isso signifique cair do palco e sentir, pela primeira vez, o chão real sob os pés.


criar facções, gerar medo, alimentar desconfiança mútua. Um povo dividido não se levanta. Ele grita entre si.


Essa fórmula sobrevive. Evoluiu. Hoje, veste terno, tem redes sociais e slogans com trilha sonora.

Hoje, ela atende pelos nomes de Democrata e Republicano.

Ou, se preferir, puppet from the left, puppet from the right — como dizia o filme Waking Life.


Ambos balançam os braços no palco, enquanto o ventríloquo real permanece invisível.

Os fantoches se opõem — mas obedecem ao mesmo dono.



O sistema finge oferecer escolhas. Mas são variações dentro da mesma estrutura.

E quem a estrutura serve?

Os super-ricos. Os intocáveis. Os que não são eleitos — mas governam.

São eles que financiam as campanhas, ditam o discurso, moldam o algoritmo.


Enquanto você se indigna com o pronome do outro ou com a cor da bandeira alheia,

eles dobram o lucro, evadem impostos, vendem armas e compram silêncio.



Os democratas oferecem o verniz progressista:

meio ambiente, minorias, causas identitárias — mas continuam aprovando orçamentos militares bilionários e defendendo empresas que exploram mão de obra no Sul global.


Os republicanos entregam o espetáculo da tradição:

Deus, armas, fronteiras — mas continuam protegendo bilionários, desregulamentando bancos e sabotando qualquer redistribuição real de renda.


Ambos alimentam a guerra cultural,

não para resolvê-la — mas para mantê-lo ocupado.

Distraído. Cansado. Dividido.

Incapaz de perceber que, no fim das contas, o seu inimigo não está do outro lado do debate, mas acima dele.



Vivemos a era do teatro ideológico.

As eleições são rituais.

A democracia, um holograma.

E a esperança, um recurso escasso.


O que resta é perguntar:

quem realmente puxa os fios da sua indignação?


Porque enquanto discutimos quem foi mais grotesco no último debate,

o mundo real — com suas contas, seus exílios, suas guerras e seus contratos — prossegue em silêncio, governado por quem nunca precisou de voto.



Talvez acordar, como diz o filme, seja perceber que o sonho era manipulado desde o início.

E que a liberdade começa quando você corta os fios,

mesmo que isso te faça cair do palco.

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