O Corpo Censurado, o Sangue Liberado
O Corpo Censurado, o Sangue Liberado
Por que o prazer ainda assusta mais do que a violência?
Em 1991, no auge da controvérsia em torno do clipe censurado de Justify My Love e das críticas à sua sexualidade performativa, Madonna foi convidada a se defender em rede nacional americana. Era o programa Nightline, da ABC News. Cercada de conservadorismo, censura e jornalistas desconfortáveis com sua liberdade, ela disse com uma frieza que cortava:
"We live in a society where killing is accepted and making love is obscene."
(Vivemos numa sociedade onde matar é aceito, mas fazer amor é considerado obsceno.)
Disseram que era provocação barata. Mas o tempo provou que era profecia.
Mais de 30 anos depois, ainda vivemos sob esse paradoxo perverso. A nudez segue sendo punida, o desejo silenciado, o erotismo confundido com indecência, enquanto a violência é consumida como entretenimento, naturalizada, algoritmizada.
Vivemos num mundo onde um seio pode ser mais escandaloso que um tiro na cabeça. Onde a nudez de um corpo é tratada como obscenidade, mas a explosão de uma bomba é exibida no horário nobre com replay, trilha sonora e ângulo alternativo.
O sexo é censurado. A violência, premiada.
E não falo aqui de pornografia, mas da sensualidade em sua expressão mais poética: o toque, o desejo, o prazer, o corpo que dança fora da cartilha moral. Esse corpo assusta mais do que o corpo ferido. Um orgasmo incomoda mais que uma chacina.
Por quê?
Porque herdamos uma cultura enraizada em séculos de cristianismo institucional, que nos ensinou a associar o prazer ao pecado e o corpo ao castigo. A tradição ocidental, moldada por valores judaico-cristãos, exalta o sofrimento como virtude e desconfia do gozo como tentação. A cruz virou símbolo de salvação, mas o êxtase do corpo, não.
E assim, nascemos dentro de uma moralidade onde o sangue redime, mas o sexo condena. Onde morrer crucificado é divino, mas gozar em liberdade é heresia.
Michel Foucault, em História da Sexualidade, já havia alertado que o sexo nunca foi simplesmente silenciado, mas transformado em objeto de controle. A partir da modernidade, o sexo passou a ser dissecado pela medicina, medido pela ciência, regulado pela religião, corrigido pela psiquiatria. Falamos mais de sexo do que nunca, mas dentro dos limites do que é aceitável, rentável, domesticável. O que se reprime não é o sexo como ato, mas o prazer que escapa à norma. O desejo que não pede licença. O corpo que não obedece.
Talvez porque o prazer seja um ato de resistência. Porque um corpo que goza sem culpa não se curva. Porque quem se permite o êxtase pode também se permitir a liberdade. E liberdade não vende bem.
A indústria que alimenta nossas telas — do Instagram à inteligência artificial - lucra com a culpa, não com o gozo.
Lucra com o medo, não com o afeto. É por isso que mostrar uma mulher amamentando pode ser bloqueado. Mas mostrar uma mulher sendo assassinada vira documentário.
Ganha prêmios. Trending.
A desculpa é sempre a mesma: "proteção". Proteção de quem, exatamente? Das crianças? Dos algoritmos? Dos anunciantes?
O que não dizem é que a sexualidade emancipa, enquanto a violência disciplina. Sexo desorganiza. Violência organiza.
Um é vida transbordando. O outro é o controle voltando.
Nos silenciaram o desejo. Mas ainda deixaram as armas.
Não por engano. Por estratégia.
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