Loucura: Entre as Armadilhas do Cuidado Clínico e as Imagens da Arte

Loucura: Entre as Armadilhas do Cuidado Clínico e as Imagens da Arte


O que a psiquiatria trata e o que a arte projeta – entre avanços, silenciamentos e escutas possíveis


Por Daniel Carvalho 


1. Psiquiatria: entre o cuidado e o controle


É inegável a importância da psiquiatria no cuidado de pessoas com transtornos mentais. Ela possibilitou avanços significativos no alívio do sofrimento psíquico, no diagnóstico de distúrbios graves e na criação de protocolos de acolhimento e tratamento.


Mas reconhecer seus méritos não significa aceitá-la como neutra.


Como mostra Michel Foucault em A História da Loucura, a psiquiatria também foi — e muitas vezes ainda é — um instrumento de controle social, de apagamento da diferença e de normalização dos corpos desviantes.


Foucault nos convida a olhar para o nascimento da própria noção de “loucura” como uma construção histórica. Durante séculos, o louco foi visto como errante, portador de uma verdade obscura, às vezes até mística. Mas, com o advento da modernidade racional e produtivista, essa figura passou a ser temida, contida, isolada.


A psiquiatria apropriou-se do discurso sobre o louco. Retirou dele a voz, os símbolos, a ambiguidade — e os substituiu por diagnósticos, manuais e fórmulas.


A pergunta que Foucault lança permanece incômoda: o que é, afinal, ser louco?


Porque, talvez, o sofrimento nem sempre venha do transtorno em si — mas da maneira como a sociedade responde à diferença. Do silêncio, do afastamento, do medo, da exclusão.


Quem não se encaixa no padrão — de produtividade, de estabilidade, de performance emocional — passa a carregar o fardo da inadequação. E isso produz dor. Dor legítima, profunda, política.


2. O cuidado como disfarce do controle


Michel Foucault nos ensinou a desconfiar. Não apenas de governos, mas de tudo aquilo que se apresenta como “natural”, “objetivo” ou “neutro”.


Para ele, não existe saber sem poder. E onde há poder, há hierarquia, exclusão, controle.


Mesmo instituições vistas como neutras — ensino, medicina, direito, psiquiatria, economia, ciência — estão atravessadas por interesses, normas sociais e discursos que moldam o que é considerado certo, sadio, normal.


A medicina, por exemplo, já diagnosticou homossexualidade como doença, considerou a leitura de romances um perigo para o equilíbrio emocional feminino e aplicou eletrochoques como rotina. Tudo isso em nome do “cuidado”. Mas cuidado para quem? E às custas de quê?


3. A psiquiatria e a máquina da normalização


A psiquiatria ainda opera, muitas vezes, pela lógica da normalização produtiva. Interna-se o que não se encaixa. Medica-se o que não rende. E os remédios, muitas vezes, vêm antes da escuta.

A lógica é clara: corrigir o indivíduo, não questionar o sistema.


4. Loucura na arte: entre o estereótipo que cala e as vozes que acolhem


No mainstream, há uma tendência clara à repetição de certos retratos da loucura:


Ela aparece como ameaça — em thrillers como Fragmentado ou Coringa.

Como descontrole feminino — em Garota, InterrompidaBlonde, ou tantas narrativas em que a mulher que sente demais é punida ou medicalizada.

Ou ainda como objeto de intervenção psiquiátrica precoce — aquele que precisa ser corrigido, medicado, encaixado no padrão.


Essas representações se tornam perigosas quando dominam o imaginário. Transformam o sofrimento em espetáculo, a diferença em defeito, a dor em disfunção.


Apesar de não se tratar de uma narrativa única, os efeitos da hegemonia são parecidos: cria-se a ilusão de que todo louco se encaixa em um desses estereótipos.


5. Outras narrativas são possíveis


Machado de Assis, em O Alienista, já desafiava o poder da psiquiatria ao perguntar: quem define o que é normal? E com qual interesse?


Caio Fernando Abreu atravessou o delírio com compaixão, dando à loucura um corpo lírico e uma ética do excesso.


Bergman, em Persona, dissolveu a linha entre sanidade e silêncio, mostrando que às vezes o silêncio é o grito mais lúcido de todos.


Obras contemporâneas como EuphoriaAs Horas e até episódios de Modern Loveretratam personagens com sofrimento psíquico sem reduzi-los a um estereótipo. Acolhem a dor sem amputá-la. Devolvem ao louco — se é que ainda faz sentido esse nome — a dignidade da escuta.


6. Alternativas Invisibilizadas: O que Não Dá Lucro Não Vira Protocolo


Práticas como meditação, reiki, homeopatia, yoga e espiritualidade são pouco incentivadas e não têm a centralidade que poderiam ter — não porque não aliviem o sofrimento, mas porque não cabem nos manuais, nos laboratórios, nas estatísticas do lucro.


É preciso reconhecer que outras formas de cuidado, menos medicalizantes e mais integrativas, podem oferecer alívio real e sentido profundo para quem sofre. Mas, fora dos grandes centros, dos sistemas de saúde pública ou dos planos privados, essas práticas seguem como exceção — ou privilégio.


7. Conclusão: uma cura possível para o tempo


Ainda hoje, é mais comum tentar adequar o louco do que romper com as estruturas que o adoecem. A psiquiatria, embora em transformação, segue muitas vezes comprometida com a lógica da normatização. A arte, por sua vez, mesmo quando escuta, também precisa vigiar os próprios clichês.


E talvez seja aí, nesse gesto radical de questionar as estruturas de poder, acolher tratamentos não tradicionais, ter mais cuidado com o uso de medicamentos pela psiquiatria e retratar com sensibilidade e complexidade na arte, que comece uma cura mais profunda — não do indivíduo, mas do tempo em que vivemos.

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