LADY MACBETH: REFRAÇÕES NA CONTEMPORANEIDADE
LADY MACBETH: REFRAÇÕES NA CONTEMPORANEIDADE
Daniel J. R. O. Carvalho
Orientadora: Profa. Dra. Elizabeth Ramos
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INTRODUÇÃO
Este artigo analisa as estratégias e escolhas envolvidas na tradução intersemiótica da peça Macbeth, de William Shakespeare, para o filme homônimo dirigido e roteirizado por Peter Moffat, produzido em 2005 pela BBC. O referencial teórico baseia-se nos Estudos Contemporâneos da Tradução, com destaque para autores como Foucault, Genette, Kristeva, Lefèvre e Arrojo. Leva-se em conta, ainda, os distintos contextos culturais e históricos: a Inglaterra elisabetana de Shakespeare e a Inglaterra contemporânea de Moffat. Em um segundo momento, o artigo analisa a ressignificação do feminino na releitura fílmica de Lady Macbeth, bem como os discursos masculinos que moldam o espaço simbólico do gênero na narrativa.
Apesar da relevância da televisão na cultura contemporânea e na construção de vínculos sociais, ela ainda ocupa um lugar subalterno na hierarquia das artes — estigma que também recai sobre a tradução, historicamente vista como uma cópia inferior do original, no rastro do platonismo.
Gilles Deleuze, relendo Nietzsche, subverte essa hierarquia ao valorizar a potência do simulacro e da cópia, provocando um abalo na dicotomia entre original e derivado. Nos Estudos de Tradução atuais, a adaptação é compreendida como um ato criativo (Foucault), permeado por intertextualidades (Kristeva) e pela noção de transtextualidade (Genette). A tradução cinematográfica de Moffat será examinada sob essa perspectiva, que rejeita a ideia de transferência linear de significados.
Walter Benjamin, em seu ensaio “A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica”, discute a noção de aura — a singularidade atribuída às obras da “alta cultura” — e como ela se dissolve com o advento das tecnologias de reprodução. A emergência da cultura de massa, pensada aqui segundo a crítica de Umberto Eco, transforma a recepção artística e introduz o risco de homogeneizar o público, como alerta Marinyze Prates de Oliveira (2004, p. 56).
Este artigo propõe, então, analisar Macbeth despido de sua aura canônica, como na metáfora de Benjamin ao extrair a pérola da concha. A proposta é examinar as relações verificáveis entre texto-fonte e tradução fílmica, refletindo sobre a adaptação dos signos escritos em signos audiovisuais — imagem e som — e afastando-se da exigência de fidelidade a um suposto original, visto que toda tradução é também uma criação.
A originalidade, afinal, também é própria das traduções. Shakespeare, tido como autor sagrado, criou a partir de fontes como As Crônicas da Inglaterra, Irlanda e Escócia, de Raphael Holinshed, e A união das nobres famílias de Lancaster e Iorque, de Edward Hall. Em vários trechos, Shakespeare transcreve literalmente essas obras. Assim, o conceito de texto puro e autêntico se dissolve diante da constatação de que a peça é, ela mesma, uma tradução cultural e textual, como nos lembra Genette.
A tradução suplementa o texto-fonte, acrescentando-lhe novas nuances. Ao invés de trair, ela permite sua sobrevivência, recriando-o em outros tempos e contextos. A aplicação do conceito de transtextualidade (Genette) evidencia que toda tradução é um hipertexto derivado de hipotextos anteriores, transformado por meio de seleção, ampliação e atualização. Cada nova adaptação de Macbeth pode ser entendida como um hipertexto que dialoga com esse hipotexto renascentista.
André Lefèvre entende a tradução como refração — um desvio inevitável e transformador ao atravessar linguagens e mídias. Este artigo examinará essas refrações na construção da personagem Ella Macbeth, versão contemporânea de Lady Macbeth na obra de Moffat.
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A REESCRITA DO FEMININO E A INTERTEXTUALIDADE EM MACBETH, DE PETER MOFFAT
Com o advento do pós-estruturalismo, reconheceu-se a atividade criativa do tradutor, compreendido como leitor-intérprete que constrói significados (FLORES, 2003, p. 28–29; ARROJO, 2007, p. 24). Considerando a obra fílmica como tradução intersemiótica, o diretor assume o papel de tradutor-leitor. A adaptação cinematográfica de Moffat, portanto, deve ser analisada como interpretação da obra de Shakespeare no contexto da linguagem audiovisual contemporânea.
Na tradução de Moffat, o trono coberto de sangue da peça original é substituído por um restaurante. Segundo o diretor, a escolha reflete a tentativa de reconstruir o castelo como espaço cotidiano do século XXI. O confinamento espacial das personagens e a confusão temporal entre noite e dia — temas centrais da peça — são ressignificados na cozinha de um grande restaurante. O poder da monarquia elisabetana cede lugar ao poder simbólico das celebridades: chefs com programas de TV e livros de receitas best-sellers dominam o novo cenário.
Na peça original, a masculinidade é tema central. Harding (1967, p. 245) observa que a masculinidade aparece tanto nos homens quanto nas fantasias distorcidas das mulheres. Jan Scott (1961, p. 95) considera esse um tema obsessivo na obra. Em vários momentos, os limites do que é permitido aos homens revelam, por oposição, o interdito às mulheres.
Quando Macduff é convocado a vingar sua família, Malcolm, filho do rei Duncan, diz: “Lutai contra o infortúnio como um homem” (SHAKESPEARE, 2009, p. 136). Macduff responde: “Oh, eu podia chorar como mulher” — frase que revela a tensão entre ação e emoção, entre o masculino da vingança e o feminino do pranto.
Lady Macbeth, ao planejar o assassinato do rei, invoca forças sobrenaturais: “Dessexuai-me, enchei-me da mais horrível crueldade” (SHAKESPEARE, 2009, p. 38). Carolyn Asp (1981, p. 83) interpreta essa fala como rejeição dos traços femininos e adoção de uma mentalidade masculina, em uma cultura onde o feminino era associado à fraqueza.
No filme, Moffat reconfigura esses papéis de gênero. A Ella Macbeth contemporânea ganha mais tempo de cena, em consonância com a maior autonomia da mulher na sociedade atual. A manipulação do marido passa a incluir referências ao trabalho imigrante e à ausência de virilidade diante da exploração profissional. O desejo de poder desloca-se da monarquia para o desejo de reconhecimento social e riqueza.
Ella se refere ao marido como submisso, e a reação dele é provar sua virilidade sexual. O conflito entre masculinidade e feminilidade, ainda presente, já não é o motor da tragédia — o são, agora, o dinheiro e a fama. A fala de Duncan sobre Ella — “uma mulher de culhões” — escancara o quanto o masculino ainda é o referencial de poder.
A tradução de Moffat atualiza não apenas o enredo, mas os valores e sensibilidades culturais. A hipótese da morte de um filho como motivação de Lady Macbeth — sugerida na peça e explorada por Freud em “Casais que fracassam após o êxito e sucessores” — é aqui tornada explícita. Ella menciona diretamente a perda como motivo para tomar o restaurante e reivindicar o sucesso que lhe é negado. O diretor justifica essa escolha como forma de gerar identificação com o público contemporâneo, para quem a morte de um filho é uma tragédia individual profunda, diferente das perdas recorrentes da infância no século XVI.
A simbologia do leite — presente no famoso solilóquio de Lady Macbeth — é retomada na cena em que Joe quebra garrafas de leite e se fere. O leite manchado de sangue atualiza a metáfora original, conectando-a ao imaginário anglo-saxônico. Como lembra Scott (1961, p. 92), na peça o leite “não é uma alegoria, mas um material físico que escorre dos corpos macerados”.
Por fim, tanto Shakespeare quanto Moffat dialogam com outros textos. Shakespeare cita Tarquínio, de “O Rapto de Lucrécia”; Moffat inclui um trecho de O Mercador de Veneza com a fala “Perdão pelo meu Shakespeare”, em tom metalinguístico. Segundo Ana Carolina Custódio (2008, p. 22), a adaptação está repleta de exemplos de transtextualidade. O diretor se mostra consciente de seu papel como tradutor e intérprete, tecendo um mosaico que homenageia, atualiza e transforma a obra-fonte.
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