Grammy, Guerra e Coca-Cola: Como os EUA Substituíram Beethoven por Taylor Swift

Grammy, Guerra e Coca-Cola: Como os EUA Substituíram Beethoven por Taylor Swift


O império do entretenimento e o colapso da arte como inquietação


Por Daniel Carvalho


1. Do piano ao algoritmo: o triunfo do gosto médio


“A história da cultura no século XX é a história da substituição de Beethoven por uma Coca-Cola aberta.”— Livremente inspirado em Nelson Rodrigues


Umberto Eco, em Apocalípticos e Integrados, já nos alertava: a cultura de massa não é um erro — é um sistema. Um sistema que produz sentido em série, como em uma linha de montagem emocional. A estética do gosto médio triunfou. O Grammy, símbolo máximo da música ocidental contemporânea, consagra não o risco, mas a previsibilidade. Não é sobre excelência, mas sobre aceitação. O prêmio vai para o som que não desafia, não fere, não inquieta. O que Adorno chamou de “indústria cultural” tornou-se norma: a arte deixou de ser experiência. Virou produto embalado em glitter e nostalgia.


2. A cultura como anestesia: da emancipação ao conformismo


Adorno e Horkheimer, em Dialética do Esclarecimento, desmascararam a promessa da cultura de massa: em vez de libertar, ela adormece. O rádio, o cinema, os streamings — tudo reduzido a uma repetição sem fricção. A música virou fórmula, o cinema virou parque temático, o livro virou coaching ilustrado. Não se trata de democratização do acesso. Trata-se de domesticação do desejo. Uma produção de subjetividade moldada para o consumo, não para a consciência.


3. A estética do vazio: o espetáculo como linguagem oficial


Gilles Lipovetsky, em A Era do Vazio, descreve um mundo onde o efêmero substituiu o trágico e o corpo ocupou o lugar da ideia. É a sociedade do espetáculo integral, onde tudo é performance — até a dor. No lugar de Beethoven, temos Taylor Swift. Mas a troca aqui é simbólica: não é Taylor contra Beethoven. É o algoritmo contra a inquietação. É o espetáculo contra o silêncio que faz pensar. A arte deixou de ser abismo. Virou feed, trilha de stories, legenda motivacional.


4. A superfície reina: quando estilo substitui sentido


Susan Sontag, em Contra a Interpretação, denunciava a obsessão moderna com o estilo em detrimento do conteúdo. Hoje, essa crítica é quase profética. O TikTok transformou a criação em clipe. A música precisa caber em 15 segundos. A arte virou moldura de fundo. O impacto visual substituiu a fricção conceitual. Sontag sonhava com uma arte que fosse sentida, não decodificada. Mas o que temos é a glorificação do banal, editado e monetizado.


5. E o Brasil? Da antropofagia ao algoritmo


O Brasil, que já foi tropicalista, barroco, múltiplo e contraditório, agora se ajoelha diante do que viraliza. A arte virou branding pessoal. A poesia virou legenda de influência. Mas ainda existem vozes que não cabem em trilhas de Reels. Há quem escreva com silêncio, cante com falha, componha com dúvida. Esses talvez nunca ganhem o Grammy. Mas são eles que ainda ousam ser humanos — e não apenas vitrines.


6. Conclusão: entre a Coca-Cola e o caos


Sim, os EUA substituíram Beethoven por Taylor Swift. Mas o problema não é Taylor. O problema é achar que só existe Taylor — e que ela precisa caber, vender, performar e sorrir. A hegemonia americana mistura tanques e refrões, mísseis e likes. Mas talvez o que mais assuste esse império não seja um novo hit. É uma arte que se recusa a ser algoritmo. Uma arte que sangra, que hesita, que não quer ser entendida — como dizia Clarice — mas sentida.


E talvez seja essa arte — falha, frágil, não viral — que um dia nos devolva a dignidade de existir fora do mercado.

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