Ghosting: Silêncios Líquidos e a Dignidade Negada do Fim

Ghosting: Silêncios Líquidos e a Dignidade Negada do Fim


Do amor líquido à positividade tóxica, quando apagar o outro sem palavra ou despedida se torna banal.


Por Daniel Carvalho 



1. O contexto atual: O silêncio que grita 


Vivemos na era dos laços líquidos, como nomeou Zygmunt Bauman: vínculos frágeis, construídos sobre a lógica do efêmero. Relações descartáveis, moldadas por um utilitarismo afetivo em que o outro só importa enquanto serve. Quando já não oferece prazer, conforto ou conveniência, é simplesmente deixado para trás. Não há tentativa de reparo. Há fuga.


Byung-Chul Han, por sua vez, aponta que vivemos sob o império da positividade tóxica. Tudo deve ser leve, produtivo, agradável. O conflito, a frustração, a dor normais a condição humana tornam-se insuportáveis. E tudo o que ameaça essa frágil superfície instagramável precisa ser eliminado, silenciado, apagado.


Nesse cenário, o ghosting não é apenas um gesto individual, é um sintoma coletivo. Um grito de silêncio que ecoa a falência da escuta, do vínculo, da responsabilidade emocional.


2. O que é o ghosting e o que ele deixa para trás


O que acontece quando um laço é cortado sem aviso, sem fala, sem fim? Quando o outro desaparece e o que sobra é só ausência, sem explicação? Chamamos isso de ghosting.


O ghosting nasce da intolerância moderna ao incômodo. É a tentativa de eliminar o desconforto sumindo com quem o provoca.


E ele se amplifica num mundo em que o outro virou obstáculo.


O culto à individualidade radical agrava esse cenário: qualquer expectativa de cuidado mútuo é vista como peso. Pedir afeto virou “carência”. Esperar presença, “dependência”.


Mas o silêncio do ghosting não encerra uma história, ele a deixa aberta, sangrando.


E o que isso causa em quem é ghosteado?


Dissociação emocional – Para não sofrer, a pessoa se desliga mas acaba se perdendo de si mesma.


Busca obsessiva por sentido – Vasculham-se conversas, gestos, pausas. Tudo em busca de um motivo que talvez nunca existiu.


Colapso da autoestima – A identidade racha. O amor-próprio adoece. E o olhar sobre si se contamina com o desprezo do outro.


 3. A Fraternidade é Vermelha e a escuta como antídoto


No último filme da Trilogia das Cores, Kieslowski nos oferece um gesto raro: o da escuta.

Valentine descobre que um juiz aposentado espiona seus vizinhos. Ela poderia facilmente se afastar. Ela teria todos os motivos para julgá-lo. Para se indignar. Para virar as costas.


Mas ela escolhe algo mais difícil: ela fica. Ela escuta.


E nessa escuta silenciosa densa, desconfortável, sem pressa talvez esteja uma das críticas mais comoventes ao modelo punitivo que domina as relações humanas:


“Cheguei a um ponto da vida em que julgar os outros me parece uma forma de arrogância.”


Valentine não o reduz ao erro. Ela o olha inteiro com sombra, com passado, com dor.

A escuta dela é o avesso do ghosting.


Kieslowski sussurra:

Escutar é resistir à barbárie do apagamento. É sustentar a presença onde o impulso seria fugir. É não desistir do humano, nem no outro, nem em si.


A escuta, nesse sentido, é o gesto mais revolucionário de cuidado.


4. Somos responsáveis por tudo o que cativamos?


Essa frase do Pequeno Príncipe nasce de um encontro entre o príncipe e a raposa. Cativar é criar laços.

E criar laços implica cuidar, mesmo na partida. O ghosting rompe esse pacto.

Ele desfaz um laço sem ao menos olhar para ele.

Não é sobre obrigação de amar. É sobre respeito pelo que se construiu junto.


Ser responsável pelo que se cativa é, nesse contexto, um antídoto contra o ghosting.

Significa reconhecer que, mesmo que a relação precise acabar, ela existiu e merece um desfecho digno. Implica não desaparecer como se o outro fosse descartável, mas sim encerrar com presença, palavra e consideração.


A responsabilidade afetiva começa no encontro, mas se revela mesmo é no adeus.



5. O que Copo Vazio, de Natalia Timerman, nos ensina?


No romance, a protagonista é deixada sem explicações por um homem com quem vivia uma relação intensa. Ela entra em colapso. Não por ter sido deixada. Mas por ter sido deixada sem palavra.


No fim, eles se reencontram.

Mas não há catarse. A autora parece dizer que não é o outro que precisa explicar. É a própria protagonista que precisa se escutar.


O luto do que não se concluiu é mais curativo que qualquer justificativa tardia. Nesse sentido, o livro sugere um caminho possível: a escuta de si mesma e o luto simbólico do que não teve fim formal. Aceitar a ausência de resposta como resposta. Reencontrar a si no vazio deixado pelo outro.

Não para esquecer, mas para continuar.



6. Quando o ghosting é apropriado?


Nem todo afastamento silencioso é crueldade.

Existem situações onde o silêncio protege:


  • Quando há abuso, violência ou invasão de limites. 
  • Quando o diálogo foi tentado e ignorado.
  • Quando a saúde mental está em risco.


7. Conclusões


Ghosting é o sintoma de um mundo que teme o afeto real.

Ele nos revela a fragilidade dos vínculos, o medo do confronto, a ausência de escuta.


Mas talvez existam antídotos:


A escuta empática que Valentine oferece no filme.

A responsabilidade por aquilo que cativamos, como diz Saint-Exupéry.

O luto legítimo, que Natalia Timerman sugere como resposta ao silêncio.

O gesto ético de simplesmente dizer: 

“Eu não vou continuar. Mas agradeço pelo que foi.”


O contrário do ghosting não é o amor eterno. É a dignidade do fim. É não apagar o outro como quem limpa a lousa da própria história.

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