Espiritismo e Cristianismo: contradição ou caminho?



Sempre me incomodou uma tensão dentro do Espiritismo: sua proposta de racionalidade universal, por um lado, e seu apego ao Cristianismo, por outro.


Kardec apresenta o Espiritismo como “a Terceira Revelação”, depois do Judaísmo e do Cristianismo. Diz que é uma doutrina baseada na razão, na observação e na moral. Um espiritualismo racional. Mas se é racional, por que manter um vínculo tão estreito com o Cristo bíblico?


Sim, o Cristo do Espiritismo é, muitas vezes, descrito mais como um espírito evoluído do que como uma divindade. Ainda assim, toda a moral, toda a linguagem simbólica e toda a organização da doutrina gira em torno de Jesus como modelo.

E não há como ignorar o quanto isso centraliza o olhar ocidental-cristão como supostamente universal.


Se o Espiritismo quer ser uma doutrina aberta à humanidade, por que não adotar uma ética verdadeiramente inter-religiosa, que inclua o Buda, Oxalá, Krishna, Maomé, os ancestrais indígenas, as sabedorias das tradições orais, as cosmovisões dos povos originários?


Se é para falar em espiritualidade racional, por que manter o vocabulário cristão, com seus pecados, resgates, castigos e culpas?


A ideia de universalidade só se sustenta se for plural.


Caso contrário, vira uma nova forma de catequese, travestida de lógica.



Sempre me incomodou uma tensão dentro do Espiritismo: sua proposta de racionalidade universal, por um lado, e seu apego ao Cristianismo, por outro.


Kardec apresenta o Espiritismo como “a Terceira Revelação”, depois do Judaísmo e do Cristianismo. Diz que é uma doutrina baseada na razão, na observação e na moral. Um espiritualismo racional. Mas se é racional, por que manter um vínculo tão estreito com o Cristo bíblico?


Sim, o Cristo do Espiritismo é, muitas vezes, descrito mais como um espírito evoluído do que como uma divindade. Ainda assim, toda a moral, toda a linguagem simbólica e toda a organização da doutrina gira em torno de Jesus como modelo.

E não há como ignorar o quanto isso centraliza o olhar ocidental-cristão como supostamente universal.


Se o Espiritismo quer ser uma doutrina aberta à humanidade, por que não adotar uma ética verdadeiramente inter-religiosa, que inclua o Buda, Oxalá, Krishna, Maomé, os ancestrais indígenas, as sabedorias das tradições orais, as cosmovisões dos povos originários?


Se é para falar em espiritualidade racional, por que manter o vocabulário cristão, com seus pecados, resgates, castigos e culpas?


A ideia de universalidade só se sustenta se for plural.


Caso contrário, vira uma nova forma de catequese, travestida de lógica.



É verdade que o Espiritismo propõe uma moral baseada no progresso da alma. Mas muitas vezes isso esbarra em moralismo puro e simples — especialmente quando se tratam de temas como sexualidade, vícios, ou comportamentos que fogem da norma.


A doutrina fala de amor e compreensão, mas ainda tem dificuldade em lidar com a diversidade humana sem encaixá-la num modelo evolutivo linear: o “espírito inferior” que comete erros, depois aprende, reencarna, e se aproxima da luz.

Mas quem define o que é erro?

Em nome de que moral?


Em nome de Jesus?



Não seria mais coerente um sistema espiritual verdadeiramente racional que se abrisse ao mistério, ao plural, à multiplicidade das culturas?

Que não precisasse se afirmar como “a terceira revelação”?

Que dissesse: não sabemos tudo — e por isso escutamos todos?


O Espiritismo tem méritos. Trouxe alento para quem sofre com a perda, ofereceu uma leitura espiritual menos dogmática que o Catolicismo.

Mas ainda carrega o ranço da missão civilizatória ocidental.

Ainda fala demais em nome da verdade.


E talvez seja hora de ouvir mais em nome do silêncio.


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