Entre Juízes, Fantoches e Medo

Entre Juízes, Fantoches e Medo

Por Daniel Carvalho 


Kieślowski, Nina Simone e Chomsky: o medo como prisão, a escuta como libertação


Por Daniel Carvalho 


1. O Juiz, o Silêncio e a Arrogância do Julgamento


No filme A Fraternidade é Vermelha, de Kieślowski, há uma cena que é mais do que cinema: é espelho. Um juiz aposentado espiona os vizinhos. A jovem protagonista poderia denunciá-lo — mas escolhe escutar. E então ele diz: “Cheguei a um ponto da vida em que julgar os outros me parece uma forma de arrogância.”


Essa frase desarma. Porque não é apenas sobre ele. É sobre nós. Sobre um sistema que confunde justiça com punição. Sobre uma sociedade que castiga antes de compreender. Sobre o medo que nos faz querer separar, isolar, excluir.


2. Não há vilões — só pessoas com medo


Kieślowski dizia que não acreditava em pessoas boas ou más. Apenas em pessoas com medo. Medo de não serem amadas. Medo de perder o pouco que têm. Medo de serem julgadas — e por isso, julgam primeiro.


Nas ruas, nas redes, nos tribunais — o medo virou lente. E quem enxerga com medo vê monstros onde há feridas. Vê perigo onde há apenas dor. Vê inimigo onde poderia haver um abraço.


3. O Medo como Arma de Estado


Noam Chomsky, em Media Control, mostra como governos fabricam consenso não com argumentos, mas com medo. Os EUA, país fundado sobre a recusa à guerra, foram moldados em direção ao belicismo por meio de campanhas que ativaram medos ancestrais: do comunismo, do terrorismo, dos imigrantes, do outro. O medo anestesia a dúvida. E anestesiados, aceitamos o inaceitável.


4. A Voz de Nina: Liberdade é Não Ter Medo


Nina Simone não escreveu tratados. Ela gritou. “I’ll tell you what freedom is to me: No fear.” Liberdade é não ter medo. É simples. É violento. E ecoa em cada silêncio de Kieślowski, em cada denúncia de Chomsky, em cada lamento do mundo. O cárcere não é feito de grades. É feito de medo. A escuta — profunda, sem julgamento — é o começo da libertação.


5. Fraternidade: Escutar Antes de Apontar


Fraternidade não é apenas um ideal da Revolução Francesa. É um gesto cotidiano. É o ato radical de escutar alguém sem querer consertá-lo. Sem precisar julgá-lo. Sem transformá-lo num rótulo. O juiz do filme aprendeu isso tarde. Mas aprendeu. E sua confissão final é menos uma desistência da justiça, e mais um elogio à empatia.


6. A Política do Pânico: Como o Medo Vira Voto


Governos autoritários não precisam mais de tanques — precisam de narrativas. A mídia em looping. Os memes com raiva. Os influencers histéricos. E o povo, assustado, clama por grades.


No Brasil, em 2018, Bolsonaro espalhou que o PT distribuía “kits gays” nas escolas. Era mentira. Mas eficaz. Ativou medos profundos: do corpo, da infância, da sexualidade. E então votaram. Não por razão, mas por pavor. O medo virou plataforma. A ignorância virou escudo.


Nos Estados Unidos, Trump subiu ao poder chamando imigrantes de estupradores e criminosos. Não importava que os dados provassem o contrário. Porque o medo não quer dados. O medo quer culpados. E se for latino, melhor ainda.


Em Israel, todo palestino virou ameaça. O medo do Hamas virou desculpa para o massacre. A desumanização é profunda, eficaz, e irreversível quando feita com medo. O Ocidente, anestesiado pelo medo exportado, silencia. A razão não dá conta de desfazer o estrago.


7. Conclusão: O Medo Julga, a Escuta Liberta


O medo é a linguagem dos impérios. A escuta é o idioma da liberdade. Antes de reformar o sistema penal, as leis ou as estruturas — precisamos reformar o olhar. E esse olhar começa por dentro. Não para nos tornarmos nossos próprios juízes. Mas para deixarmos de ser fantoches no teatro da dominação.


Porque enquanto o medo nos guiar, seremos sempre réus — mesmo quando achamos que estamos julgando.

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