Drogas, leis e hipocrisia: quem decide o que é crime?
Drogas, leis e hipocrisia: quem decide o que é crime?
por Daniel Carvalho
A criminalização das drogas não nasceu da ciência, nem da preocupação com a saúde pública. Nasceu do medo, do racismo, da manipulação moral — e, acima de tudo, do poder. No início do século XX, os Estados Unidos começaram a tornar substâncias ilegais não com base em estudos toxicológicos, mas por pressão política. A maconha, por exemplo, foi associada aos imigrantes mexicanos — dizia-se que os tornava “mais corajosos” para enfrentar brancos e soldados americanos. Esse tipo de narrativa alimentou o medo racial e ajudou a justificar sua proibição.
Figuras como Harry Anslinger, no Departamento Federal de Narcóticos, e J. Edgar Hoover, no FBI, lideraram campanhas massivas de desinformação, criando pânico moral e ampliando a repressão. Enquanto isso, substâncias como o álcool e o tabaco — muito mais letais em termos de saúde pública — seguiram legalizadas, amparadas por seus laços culturais, políticos e econômicos.
É aqui que a hipocrisia se escancara: por que produtos que matam milhões de pessoas por doenças cardiovasculares continuam livres de regulação severa, enquanto jovens negros e pobres são presos por portar um cigarro de maconha? A resposta é simples: o critério para definir o que é lícito não é científico — é político.
Mesmo o álcool, socialmente aceito, tem efeitos psíquicos profundos. Na linguagem freudiana, ele suprime o superego, aquele censor interno que controla nossos impulsos. Isso explica por que tantas pessoas cometem atos destrutivos sob efeito do álcool — e, mesmo assim, ele permanece legal, promovido, celebrado. Não se trata de defender a liberação indiscriminada de drogas, mas de reconhecer que há um duplo padrão evidente.
Além disso, vivemos um paradoxo: enquanto se demoniza o uso recreativo de certas substâncias, outras estão sendo redescobertas pela ciência como ferramentas terapêuticas. Canabidiol, cetamina, ecstasy, psilocibina — todos esses compostos, antes perseguidos como símbolos da contracultura, agora mostram eficácia no tratamento de depressão, ansiedade, estresse pós-traumático, epilepsia e dor crônica.
A abordagem moralista não apenas falha, como piora a vida de quem mais precisa de ajuda. Estigmatizar o usuário como “fraco”, “imoral” ou “perigoso” apenas afasta o dependente do cuidado. Isso se agrava com modelos de internação involuntária: estudos mostram que os índices de reincidência após internamentos forçados são altíssimos, e os casos de abstinência duradoura motivada apenas por internação são raros. Mesmo assim, parte da psiquiatria insiste nesse modelo, mesmo sabendo que sem vínculo, escuta e liberdade, não há cura — só contenção.
No fundo, estamos diante de uma disputa simbólica: quem tem o direito de alterar a consciência e quem será punido por isso? A resposta tem cor, classe e endereço. A guerra às drogas nunca foi contra as substâncias — foi contra corpos específicos.
Talvez seja hora de inverter a pergunta: não “que droga é perigosa?”, mas “que sistema decide o que é perigoso — e para quem?”. Enquanto isso, seguimos em um mundo onde a cerveja é vendida em estádios lotados, mas o canabidiol precisa de autorização judicial para ser comprado por uma criança com epilepsia.
É preciso coragem para reconhecer: não há justiça na forma como tratamos as drogas. Só interesses. Só versões. Só histórias mal contadas em nome da ordem.
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