Diagnosticar é cuidar — quando feito com ética
Diagnóstico Não É Prisão: É um Caminho Possível para o Cuidado
Quando nomear salva: o diagnóstico como mapa e não sentença.
por Daniel Carvalho
1. O perigo de patologizar tudo
Nem toda dor é transtorno. Nem toda diferença é disfunção.
Nos últimos anos, muitos filósofos, psicanalistas e pensadores sociais vêm alertando sobre o uso excessivo da palavra “transtorno”. Transformar toda forma de sofrimento em diagnóstico pode ser uma forma moderna de silenciar o que escapa à norma.
Reduzir a dor a um código clínico pode esconder as raízes sociais do sofrimento — como o racismo, a LGBTfobia, a pobreza e o patriarcado. Pode ainda negar a complexidade da existência e tentar “curar” o que talvez só precise ser escutado, narrado, legitimado.
2. Mas o diagnóstico pode ser bússola
Não se trata de abolir o diagnóstico. Mas de usá-lo com ética.
Quando bem aplicado, um diagnóstico pode aliviar o sofrimento intenso e contínuo, ajudar a proteger vidas em risco e oferecer linguagem e instrumentos para quem deseja se cuidar.
Certos traços, quando desregulados, machucam não só quem os carrega, mas também quem está por perto. Ciúmes obsessivos, impulsividade destrutiva, frieza crônica, narcisismo que humilha. Tratar não é moralizar — é cuidar.
3. Diagnosticar é oferecer mapa, não sentença
Um bom diagnóstico não reduz ninguém a um laudo. Ele funciona como uma placa de trânsito: não define quem passa, mas orienta o caminho.
Mesmo que não sirva para todos com exatidão, pode ajudar muita gente a entender o próprio percurso, prever curvas, evitar precipícios. Diagnosticar é criar uma linguagem comum entre paciente e profissional. É nomear a dor para que ela possa ser acolhida, compreendida, transformada.
4. Da culpa ao cuidado: o poder de saber o que se tem
Para algumas pessoas, o diagnóstico traz alívio. Ajuda a entender que aquele comportamento não é sinal de fracasso moral, mas parte de um padrão que pode ser tratado.
É a passagem do julgamento para o cuidado. Da vergonha para a responsabilidade. Do caos para alguma clareza.
5. Os riscos de um diagnóstico mal feito
A escritora Laurie Penny relata no livro Unspeakable Things que foi diagnosticada com um transtorno alimentar que não tinha — e, a partir do diagnóstico, desenvolveu sintomas reais.
Esse é o perigo da iatrogenia: quando o tratamento cria o problema que deveria curar. Por isso, o diagnóstico exige cuidado, escuta, contexto. Nem toda dor é doença. Nem toda diferença precisa ser corrigida.
6. Sofrimento é também estrutura: cuidar é fazer justiça
A mente adoece, sim — mas também adoece por não caber num mundo que exige produtividade, controle e desempenho.
Deslegitimar a dor como “mimimi” é uma forma de perpetuar o abandono. Muitas vezes, não é a personalidade que fere — é o mundo que a rejeita.
Se houvesse cuidado coletivo, renda digna, acolhimento das diferenças, escuta nas escolas e menos medicalização da infância, muito sofrimento nem precisaria virar diagnóstico.
7. Conclusão: diagnosticar com ética é um ato de coragem e compaixão
O diagnóstico, quando bem usado, não é caixa, é chave.
Não é prisão, é possibilidade.
Não é sentença, é mapa.
É o início de um caminho onde o sofrimento tem nome, tem história, tem contexto — e deixa, enfim, de ser vivido sozinho.
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