Desejos e Expectativas no Ocidente e no Oriente Breve genealogia do desejo no Ocidente, Ana Suy, Emocionários, Dhammapada e outras vozes contemporâneas

Desejos e Expectativas no Ocidente e no Oriente


Breve genealogia do desejo no Ocidente, Ana Suy, Emocionários, Dhammapada e outras vozes contemporâneas 


Por Daniel Carvalho


No Oriente, o desejo é visto como a origem do sofrimento.

No Ocidente, a história é bem mais ambígua.



I. Platão: o desejo como escada para o invisível


Em O Banquete, Platão nos fala de Eros, o desejo que nasce da falta e da abundância. O desejo carnal seria cego, inferior, movido pelos sentidos. Mas há um outro desejo — aquele pelo Belo — que pode nos elevar do mundo sensível ao mundo das ideias. Para Platão, desejar bem era subir uma escada em direção ao eterno.



II. Freud: o desejo como estrutura da psique


Com Freud, o desejo se enraíza no inconsciente. Não é mais escolha moral, mas constituição do sujeito. Somos moldados por desejos que não compreendemos — e ao reprimi-los, adoecemos. O desejo freudiano é falta, é pulsão, é deslocamento. Não há como escapar dele sem pagar um preço.


III. Nietzsche: desejar é viver com intensidade


Nietzsche resgata o corpo, os instintos, o gozo da existência. Para ele, o desejo é vontade de potência, força criadora que afirma a vida contra a moral da negação. O desejo não é pecado nem desvio — é o próprio impulso do viver em sua forma mais trágica e bela.



IV. Lacan: o desejo como linguagem e falta


Lacan retoma Freud e o inscreve na linguagem:


“O desejo é o desejo do Outro.”

Desejamos aquilo que o outro deseja, ou aquilo que acreditamos que ele deseja de nós. O desejo, então, é estruturalmente impossível de satisfazer. Mas é justamente por isso que seguimos desejando — e vivendo.



V. Deleuze e Guattari: desejo como produção e potência selvagem


Deleuze rompe com a tradição da falta:


“O desejo não é ausência. É produção.”

Ele cria mundos, conexões, máquinas de sentido. É selvagem, subversivo, coletivo. Desejar é criar fissuras no real. É potência criadora — não buraco a ser


preenchido.


VIII. Outras vozes contemporâneas

Byung-Chul Han, embora de origem sul-coreana, escreve a partir de uma matriz crítica ocidental. Sua filosofia é atravessada por Nietzsche, Heidegger e Foucault. Em obras como A Sociedade do Cansaço e A Agonia do Eros, ele denuncia a substituição do desejo pela lógica da performance:

O sujeito não deseja — ele se explora. Não há mais erotismo da espera, só produtividade emocional. O desejo foi domesticado e esvaziado pelo excesso de positividade.

Zygmunt Bauman fala do desejo líquido: sempre insatisfeito, sempre substituível. O desejo moderno é efêmero como os vínculos que o sustentam.

Mark Fisher observa como o desejo foi capturado pelo capitalismo: não desejamos mais o que nos transforma, mas o que é permitido desejar. A repetição virou norma, e o novo se tornou impossível.



IX. Oriente: o desejo como causa do sofrimento


No Oriente, a abordagem é outra. Tradicionalmente, no budismo — especialmente em sua vertente Theravada — o desejo é visto como a raiz do sofrimento.


Vale lembrar, no entanto, que há visões orientais mais sutis ou integrativas, especialmente em tradições como o Zen, o budismo tibetano e o Tantra, que propõem uma transformação consciente do desejo em sabedoria e compaixão.


O Dhammapada, texto sagrado do budismo, é direto:


“Do desejo nasce a tristeza; do desejo nasce o medo. Aquele que está livre do desejo não conhece tristeza nem medo.”

(Dhammapada, verso 216)


Para o Buda, o desejo é o elo que nos prende ao ciclo de sofrimento. Libertar-se dele não é negar a vida, mas desidentificar-se do apego àquilo que é impermanente.


O ideal não é desejar com mais consciência. É não se deixar dominar pelo desejo.


X. Epílogo: entre Buda e Deleuze, uma travessia


E então?

Qual dessas visões faz mais sentido?


Talvez a resposta mais honesta seja:


Depende de onde você está.


Quando estamos tomados por um desejo que nos arrasta —

o desejo que faz perder o sono, o centro, a dignidade —

talvez os orientais estejam certos.


Mas quando desejamos com consciência,

quando o desejo é centelha de criação, de encontro, de sentido —

Nietzsche talvez tenha razão:


Desejar é viver com intensidade.


No fundo, o mais perigoso talvez não seja desejar,

mas não saber o que se deseja.

Ou desejar o que o outro deseja.

Ou desejar tanto que se destrói no caminho.


Desejar com lucidez é liberdade.

Desejar no automático é prisão.


Entre o Buda e Freud, entre Lao-Tsé e Deleuze,

talvez o mais sábio seja observar o desejo como se observa o mar:

ora manso, ora furioso.

Nem se lançar de cabeça,

nem se trancar na areia.

Mas aprender a surfar.


Prisão ou potência?

O desejo é uma travessia.


Desejos e Expectativas no Ocidente e no Oriente


Breve genealogia do desejo no Ocidente, Ana Suy, Emocionários, Dhammapada e outras vozes contemporâneas 


No Ocidente, o desejo sempre foi ambíguo: Para Platão, era escada para o invisível. Para Freud, a estrutura que nos molda. Nietzsche o viu como força vital. Lacan, como ausência que nunca se preenche. Deleuze, como produção selvagem e criadora.


Mas e hoje? Como desejamos no século XXI?


Ana Suy nos convida a olhar o desejo com mais ternura — e menos culpa. Ela diz: “Desejar é criar expectativa. E viver sem expectativa é não abrir os olhos.” No conto “Felicidade Clandestina”, de Clarice Lispector, Ana encontra a essência do desejar: “Não é apenas querer. É querer continuar querendo.”


Outros pensadores contemporâneos: Byung-Chul Han denuncia a morte do desejo: o eros deu lugar à performance. Bauman fala do desejo líquido, descartável, substituível como os vínculos. Mark Fisher observa: não desejamos o que nos transforma, mas o que o sistema permite desejar.


Já no Oriente, Buda sussurra: “Do desejo nasce o medo. Aquele que está livre do desejo não conhece tristeza nem medo.”


Entre o Buda e Ana Suy, entre Deleuze e Han, quando estamos tomados por um desejo que nos arrasta 

o desejo que faz perder o sono, o centro, a dignidade 

talvez os orientais estejam certos. Mas quando desejamos com consciência, quando o desejo é centelha de criação, de encontro, de sentido  Nietzsche talvez tenha razão. .

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