Desejo: prisão ou potência? Uma travessia entre Oriente e Ocidente
Desejo: prisão ou potência? Uma travessia entre Oriente e Ocidente
No Emocionário, o desejo aparece como impulso vital, motor de ação, algo que nos move em direção ao que queremos. A satisfação de um desejo seria então motivo de prazer — e prazer, de gratidão. Tudo soa luminoso, afirmativo, quase infantilmente confiável. Mas será mesmo assim? Em muitas tradições filosóficas e espirituais, especialmente no Oriente, essa história tem outro tom.
No budismo, por exemplo, o desejo (tanhā) é justamente a raiz do sofrimento humano. Não apenas o desejo pelo que é bom, mas também a aversão pelo que é ruim. Desejar é estar preso ao ciclo de carência, apego e frustração. Ser livre, então, seria não depender do que se quer ou teme. Na prática: desejar menos, reagir menos, observar mais.
O taoismo caminha no mesmo sentido. Para Lao-Tsé, viver em harmonia com o Tao exige o esvaziamento do ego e a renúncia aos desejos artificiais. O sábio não impõe sua vontade ao mundo — ele se adapta, flui, como a água.
Já no hinduísmo, o desejo (kāma) é uma das metas legítimas da vida, mas só tem sentido se estiver subordinado ao autoconhecimento (atma jñana) e à libertação espiritual (moksha). Ou seja: pode desejar, sim — mas com lucidez e sem se afundar no apego.
Em contrapartida, no Ocidente, a história é bem mais ambígua.
Para Platão, o desejo carnal é cego e inferior, mas o desejo pelo Belo pode nos elevar. Para Freud, somos feitos de desejo — e reprimi-lo gera sintomas. Nietzsche vai além: o desejo é força criadora, vontade de potência. Já Deleuzenos convida a ver o desejo não como falta, mas como produção — um campo fértil, revolucionário, selvagem.
E então? Qual dessas visões faz mais sentido?
Talvez a resposta mais honesta seja: depende de onde você está.
Quando estamos tomados pelo desejo que nos arrasta — o desejo que faz perder o sono, o centro, a dignidade — talvez os orientais estejam certos.
Mas quando desejamos com consciência, quando o desejo é centelha de criação, de encontro, de vida com sentido, talvez Nietzsche tenha razão: desejar é viver com intensidade.
No fundo, o mais perigoso talvez não seja desejar, mas não saber o que se deseja. Ou desejar aquilo que o outro deseja. Ou desejar tanto que se destrói no caminho.
Desejar com lucidez é liberdade.
Desejar no automático é prisão.
Entre o Buda e Freud, entre Lao-Tsé e Deleuze, o mais sábio talvez seja observar o desejo como se observa o mar: ora manso, ora furioso.
Nem se lançar de cabeça, nem se trancar na areia.
Mas aprender a surfar. prisão ou potência? Uma travessia entre Oriente e Ocidente
No Emocionário, o desejo aparece como impulso vital, motor de ação, algo que nos move em direção ao que queremos. A satisfação de um desejo seria então motivo de prazer — e prazer, de gratidão. Tudo soa luminoso, afirmativo, quase infantilmente confiável. Mas será mesmo assim? Em muitas tradições filosóficas e espirituais, especialmente no Oriente, essa história tem outro tom.
No budismo, por exemplo, o desejo (tanhā) é justamente a raiz do sofrimento humano. Não apenas o desejo pelo que é bom, mas também a aversão pelo que é ruim. Desejar é estar preso ao ciclo de carência, apego e frustração. Ser livre, então, seria não depender do que se quer ou teme. Na prática: desejar menos, reagir menos, observar mais.
O taoismo caminha no mesmo sentido. Para Lao-Tsé, viver em harmonia com o Tao exige o esvaziamento do ego e a renúncia aos desejos artificiais. O sábio não impõe sua vontade ao mundo — ele se adapta, flui, como a água.
Já no hinduísmo, o desejo (kāma) é uma das metas legítimas da vida, mas só tem sentido se estiver subordinado ao autoconhecimento (atma jñana) e à libertação espiritual (moksha). Ou seja: pode desejar, sim — mas com lucidez e sem se afundar no apego.
Em contrapartida, no Ocidente, a história é bem mais ambígua.
Para Platão, o desejo carnal é cego e inferior, mas o desejo pelo Belo pode nos elevar. Para Freud, somos feitos de desejo — e reprimi-lo gera sintomas. Nietzsche vai além: o desejo é força criadora, vontade de potência. Já Deleuze nos convida a ver o desejo não como falta, mas como produção — um campo fértil, revolucionário, selvagem.
E então? Qual dessas visões faz mais sentido?
Talvez a resposta mais honesta seja: depende de onde você está.
Quando estamos tomados pelo desejo que nos arrasta — o desejo que faz perder o sono, o centro, a dignidade — talvez os orientais estejam certos.
Mas quando desejamos com consciência, quando o desejo é centelha de criação, de encontro, de vida com sentido, talvez Nietzsche tenha razão: desejar é viver com intensidade.
No fundo, o mais perigoso talvez não seja desejar, mas não saber o que se deseja. Ou desejar aquilo que o outro deseja. Ou desejar tanto que se destrói no caminho.
Desejar com lucidez é liberdade.
Desejar no automático é prisão.
Entre o Buda e Freud, entre Lao-Tsé e Deleuze, o mais sábio talvez seja observar o desejo como se observa o mar: ora manso, ora furioso.
Nem se lançar de cabeça, nem se trancar na areia.
Mas aprender a s
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