Caixa Preta: Capítulo 2 “Vai ser gauche na vida”
Capítulo 2 “Vai ser gauche na vida”
“There was a boy, a very strange, enchanted boy…”
— Nature Boy, David Dowie
Desde cedo havia uma rachadura. Uma fissura quase imperceptível no cimento fresco da infância. Pequena. Quase invisível. Mas era ali que a poeira se acumulava, paciente.
Fui uma criança que sentia demais. Como quem caminha descalço sobre terra molhada e ouve a respiração do chão. Ouvia o que se falava com os olhos, o que se insinuava. Havia uma delicadeza no gesto, uma atenção ao que era pequeno demais para ser notado.
E então vieram as palavras. Não palavras, lâminas. As vozes nas salas, nos corredores. “Esquisito.” “Viado.” Zombarias diárias, insultos que se infiltravam nos poros até virar carne. A infância é cruel porque tem dentes. E morde onde não se vê. E tem olhos que miram só pra ferir, como pregos fincados na madeira do dia. E o riso repetido virou sentença que com o tempo comecei a acreditar.
E aprendi cedo: olhar nos olhos podia ser um convite à dor. Ser visto podia queimar mais que o sol do meio-dia. Escavar olhares era como abrir janelas em casas que deveriam permanecer fechadas.
Passei a me mover nesse lugar de sombra: entre querer que me vissem e temer que me enxergassem de verdade.
A gente finge bem. Finge até esquecer que está fingindo. Fingi estar bem. Fingi estar inteiro. Fingi que não doía. Com a obstinação muda de quem atravessa um cômodo escuro, tateando paredes, sem acender a luz para não despertar os monstros. Como um animal encurralado que aprende a parecer inofensivo para sobreviver. De tanto fingir, em algum momento, o gesto se tornou automático. Como quando se aperta um interruptor e já não se pensa mais na lâmpada.
Passei a sorrir. Não por alegria. Mas por defesa. Sorrisos são ferramentas. Camuflagens. Como uma parede pintada de branco para esconder o mofo.
As marcas ficaram. E a infância, mesmo quando termina, deixa sua herança. Uma herança feita de silêncios longos. De hábitos inexplicáveis. De cautelas que ninguém entende.
Algumas feridas não gritam. Elas apenas continuam ali, atravessando os anos como quem permanece por não ter sido convidado a sair.
O meu fingimento era uma tentativa de ser como Frida Kahlo. Pensaria nisso anos depois. Ela dava forma ao que a devorava, transformava a dor em contorno, traço e tinta. Colocava cor onde faltava ar e o riso nos lábios. E, para os outros, expunha o riso. Um riso que parecia saber que desabar é coisa que se faz em silêncio.
Era um tipo de alegria tensa, como um músculo contraído. Havia nela delicada engenharia que não deixava parecer estar prestes a desmoronar. Como quem dança sobre os próprios restos de si com flores nos braços e nenhum convite para a cerimônia.
Ela também fingia. Sim, fingir, esse verbo que a gente fala baixinho, pra não parecer fraqueza. Ela o ensaiou tantas vezes que a carne se moldou a ele. E de tanto carregar o que pesa, ela gente aprendeu a se manter em pé, a ser forte. Forte de verdade. Mesmo que ser forte, às vezes, é só o nome que dão quando a gente não tem escolha.
Meu projeto de parecer feliz não resistiu à claridade da manhã. Frida pintou a dor com cor e foi bela sua mentira. A minha tinta secou antes de cumprir o disfarce. Fiquei com a dor exposta, imóvel, encarando de volta como um espelho não solicitado.
Olho no espelho e não encontro a máscara que queria. Vejo outra: aderida ao rosto, tecida de cansaço, de noites mal dormidas. Dos sulcos marcados como linhas de um mapa gasto em uma boca que aprendeu o gesto do sorriso triste.
Há sorrisos que doem mais que as lágrimas, porque fingem luz enquanto ardem. Não aprendi o truque de parecer bem. Há uma opacidade no meu olhar, como vidro embaçado em dia cinzento. Olho para o mundo com a mesma expressão com que se olha um jornal antigo.
Não sonho mais fácil. Custa acreditar que algo novo e bom ainda me aconteça. Como custa caminhar com pés descalços sobre um chão gelado onde já não há promessa. É cedo, dizem. Mas eu me sinto tarde. Às vezes a vida dá a sensação de que a gente perdeu antes de começar.
Sinto como se estivesse apodrecendo quieto, num canto limpo, protegido, invisível. Fruto esquecido em redoma de vidro. Sem ar. Sem espaço. Sem urgência.
O que me assusta é o quanto aprendi a amar o pouco.
A forma como me acostumei com alegrias de segunda mão.
Vícios discretos. Migalhas que me impedem de saber o que é um amor inteiro. Quem se acostuma com pouco acaba achando o muito perigoso.
Só quero, às vezes, qualquer coisa que não seja essa dor crua. Uma dor que se instala como mobília e ninguém mais pergunta por que está ali. Ela não explica mais nada. Só ocupa espaço. Certas dores são como móveis antigos: pesadas, mas ninguém ousa retirar.
A rejeição que já nem sei de onde veio porque ficou tempo demais. Ficou tanto tempo que ganhou lugar à mesa. E como tudo que permanece, criou raízes. Talvez eu deseje ser rejeitado. Pra provar que sempre estive certo, errado demais para merecer.
Por isso o corpo foi se deixando sujo, ausente, estranho a si. Evitei o banho. O espelho. Talvez me tornar repulsivo fosse só um jeito tolo de tentar desaparecer. Ser invisível era menos arriscado do que ser atingido outra vez.
Mas não foi escolha. Não exatamente. Foi instinto. Foi defesa. Um tipo de sobrevivência. A defesa como forma delicada que o medo encontra para durar.
Mesmo agora, e é estranho dizer “agora” como se ele fosse firme, como se me pertencesse, volto para o mesmo abismo como quem visita um velho conhecido por não saber para onde mais ir. Certas dores viram endereço antigo. A gente passa por lá sem perceber.
Falo demais. Falo rápido. Como quem joga palavras à frente, na esperança de que formem um escudo. Mas no fundo, só quero ser ouvido. E erro o tom, o tempo, o gesto. Há uma forma errada de pedir escuta. Então me calo. E odeio o silêncio onde tudo ressoa.
Eu, os ecos do meu pensamento, o que evito, o que preferia não saber. O silêncio é uma sala onde todos os espelhos devolvem o que se tentou esquecer.
Já fui amado. Sim. Mas era como se o amor batesse na porta errada. Eu não me achava digno daquele afeto. Ou me viciei tanto na dor que confundi castigo com afeto. Amor com punição.
O que me dissolve, gota a gota é esse isolamento. Não o isolamento visível, com portas e fechaduras. Mas uma falta de pertencimento. Esse vazio que não é ausência mas desconexão de tudo. Esse não pertencer. Tudo continua, mas eu já não me sinto incluído.
E então fujo. Do meu corpo, do ruído de ser. Habitar-me tornou-se insuportável. Saio de mim como quem abandona um quarto depois de apagar as luzes, como quem abandona um apartamento em silêncio. Me olho à distância sem saber se volto. É possível estar presente e, ao mesmo tempo, em exílio de si. Tem hora que sair de si é a única forma de ficar vivo.
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