A mentira confortável da meritocracia
A mentira confortável da meritocracia
A meritocracia é uma daquelas ideias que parecem inquestionáveis: se você se esforçar, vai vencer. Se não venceu, é porque não se esforçou o suficiente. É uma ideia sedutora porque oferece sentido, lógica, controle. Mas é também uma das mais perversas formas de narrar a desigualdade.
O filósofo Michael Sandel, em A Tirania do Mérito, desmonta essa ficção. Ele lembra que o sucesso raramente é só fruto de esforço pessoal. Sorte, circunstância, lugar de nascimento, estrutura familiar, raça, saúde — tudo isso pesa. A meritocracia ignora esses fatores e se baseia em uma mentira fundadora: a de que todos partem do mesmo ponto de partida. Mas não partem. E fingir que partem é justamente o que permite à meritocracia parecer justa quando, na verdade, ela reforça desigualdades.
Quando alguém que nasceu na pobreza extrema chega ao topo, isso é tratado como prova de que “é possível para todos”. Mas são casos raríssimos, quase milagres estatísticos. Essas pessoas provavelmente tinham habilidades extraordinárias ou foram beneficiadas por uma cadeia improvável de acasos favoráveis. Ainda assim, são vendidas como regra, não como exceção.
A extrema direita defende com paixão a ideia da meritocracia. Não por ingenuidade, mas porque ela cumpre uma função estratégica. Primeiro, justifica a desigualdade. Se os ricos são ricos porque merecem, os pobres também merecem estar onde estão. Segundo, transfere a culpa. Não há mais estrutura opressora, racismo, herança colonial ou injustiça social. Há apenas indivíduos que “não tentaram o bastante”.
Além disso, a meritocracia é usada como arma contra qualquer proposta de reparação social. Cotas raciais? Bolsa para estudantes periféricos? Apoio público? Tudo isso passa a ser visto como “privilégio ao contrário”. Mas essa reação ignora que o privilégio original — a vantagem de nascer branco, rico, bem conectado — nunca foi resolvido.
No fundo, a meritocracia combina perfeitamente com o individualismo neoliberal: você é o único responsável pela sua vida. Não importa se você nasceu com um teto ou debaixo dele, com livros ou fome, com acesso à saúde ou ao descaso. O mundo meritocrático não quer saber de contextos, apenas de resultados.
A mídia e os discursos de poder reforçam isso ao exaltar bilionários como se fossem gênios autônomos, líderes iluminados que vieram do nada, quando na maioria das vezes vieram de tudo: pais ricos, escolas privadas, heranças, redes de contatos. E mesmo aqueles que “subiram” sozinhos são apresentados como exemplos para manter o sistema intacto, não para questioná-lo.
Como canta Renato Russo: “Quem tem demais não se convence de que tem o bastante, fala demais por não ter nada a dizer.” É a meritocracia em verso: uma máquina de justificar o privilégio, negando sua origem.
A verdadeira justiça não começa tratando todos como iguais, mas reconhecendo que não são. E só a partir desse reconhecimento podemos construir algo que se aproxime de uma sociedade onde mérito e oportunidade não sejam antônimos.
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